02/05/2011

Pensamento da semana

"Nesses últimos dias, o mundo está parecendo jogo de xadrez:

sexta-feira só se falava no rei e na rainha; no domingo beatificaram o bispo; depois, deram xeque-mate em quem derrubou as duas torres...  E eu, aqui, de peão, trabalhando que nem um cavalo."   (Anônimo)  

rainha

29/04/2011

E o beijo???

Acordei cedo, como faço normalmente para levar filhos à escola e, óbvio, logo às 6h já fui espiar o casamento do principezinho Guilherme e sua linda gata borralheira. Quando vi, lá estava eu de olhos grudados nos detalhes da cerimônia, bem como a gente faz na noite de entrega do Oscar: malhamos, mas assistimos.

O casamento não foi assim um show de Paul McCartney, mas tava interessante de ver. Diria que foi o segundo casamento do século (o primeiro foi o do Shrek).

Deu vontade de encarnar a colunista social e fazer uma cobertura ácida do evento. Então fiquei atrás de gafes, breguices e excentricidades, mas me rendi a um casamento bonito e até normal, não fosse a quantidade de protocolos invioláveis. Nada de tropeços na entrada da igreja, nem chuva de pétalas vermelhas. Necas de beijo de língua na sacada do castelo. Nada que pudesse ser mal falado, nada, nada, nada. Vamos aos fatos:

A abadia de Westminster estava lindíssima e tropical - plantaram árvores verdejantes ao longo das naves laterais. As crianças estudaram impecavelmente os cânticos e receberam no rosto pó compacto para aspecto de anjos.



Os vestidos das convidadas de forma geral estavam como a comida na Inglaterra, meio sem graça, mas os chapéus... hum, os chapéus! Divertidos, apetitosos. Tinha chapéu de laço gigante apoiado no nariz, chapéu da Cruela Devil, chapéu de três pontas. Até o bispo de Londres portava um gorro em pink moderníssimo! E a mulher do primeiro ministro inglês foi a única sem chapéu, glup. No cabelo de Kate, depois de toda aquela polêmica com a sogra, não havia as desejadas flores, mas a tiara de diamantes emprestada da rainha Elizabeth (prova de que Camila Parker-Bowles ainda tem autoridade).

No trajeto de carruagem até o palácio de Buckingham, os cavalos se engalfinhavam, mas o casal seguiu descontraído, abananando e sorrindo como manda o protocolo. Nada de ficar de pé na carruagem como eu faria, assobiando para o povo. Nem movimentos efusivos com braços estendidos, nãnaninanã. A mão abanava discretamente como previsto no manual real: 10cm de distância do queixo, medido a partir do dedo médio, em movimentos semi circulares. Irretocável.

Ao final, pensa que teve cena insinuante na sacada? Nada. Uma micro bitoca de 2 (dois!)segundos e era isso. E o noivo nem limpou com a mão como um resto de catchup no canto da boca. Realeza não dá o que falar.

Mas vamos combinar: eles não estavam sozinhos na cena íntima- eu também morreria de medo daquela Rainha em pele de pintinho amarelinho ao lado, com seu olhar fuzilante. Ei, psiu, pega o lenço que caiu no chão, e apoia aqui o trocadilho: a coroa é assustadora.



















23/04/2011

Coelho da Páscoa não existe

leaofechandoos olhos

Que saudade do tempo em que eu era um pingüim!

Naquele trabalhinho da 2ª série estava respondido em garatujas, mas parecia sério: “Com que animais sua mãe se parece? Minha mãe é um pingüim porque me esquenta muito; ela também é um tigre porque é braba e corre bem; é uma coruja porque me cuida quando estou dormindo. E é um polvo porque me abraça demais.” Guardei a prova para quando minha filha ficasse maior e me visse com outros olhos.

Pois o tempo passou e – bingo! - hoje em dia sou um típico jumento, às vezes uma víbora, na maioria das ocasiões, ameba. É isso mesmo, a adolescência chegou à minha casa. Aos poucos se adota um dialeto estranho, do tipo “quem mocou meu tênis na tulha”? Ou: “não pilho de jantar agora” e, confesso, eu mesma me pego exclamando “alcança esse bagulho aí” (comunicação é a lei da selva). O habitat em casa está visivelmente diferente: skates pelo chão, rock em alto volume (veja bem, não estou falando de Mozart), e pizza de manhã. Uma selvageria.

Mas eu seria uma anta se achasse que está tudo errado. Lembro bem de quando completei treze anos e troquei a foto dos meus pais do porta-retrato: coloquei minha adorável hamster Bianca. Uma pequena atualização nos referenciais (oh, mundo cão, eu não sabia que meu dia também chegaria!). Fui mais espírito de porco ainda: pendurei um pôster dos roqueiros malucos do ACDC na porta de fora do meu quarto. Era o mesmo que uma placa de “Não Entre”, apenas ilustrada. Quem duvida da clareza do recado? Nunca entre. Nem batendo antes.

Eu sei como funciona a fase adolescente e não chego a me assustar, porque ela passa. (A propósito, tem vezes que dá vontade de ser um camaleão, mimetizar uma bromélia de sombra e ficar bem quietinha, esperando a adolescência ir embora).

Sábia e rápida é a mãe-salmão, eu vi no National Geographic Channel: põe seus ovos sobre um ninho de pedregulhos e, em ato contínuo, recosta-se docemente para morrer no fundo do mar. Ali termina a missão da mãe-salmão, logo no início da maternidade. Ela não fica para ver seus filhos recusarem um beijo de manhã ou para ouvir-lhes sentenciar que sua técnica de subir a correnteza já está ultrapassada há mais de um século. Como não sou espécie assim evoluída, ainda opto com alegria pela maternidade italiana tradicional: filhos sentados em bando à mesa, todos falando ao mesmo tempo, e de boca cheia.

Tem muita coisa “animal” na adolescência. Mas o que me choca nessa ebulição de hormônios é a inversão abrupta das referências dos pais-heróis: o forte tigre de repente vira um moscão tonto e não há muito o que fazer a respeito. Adultos não sabem das coisas e não fazem parte da matilha. Menos ainda se forem da espécie “pais”.

Então, durante a adolescência, esqueça a cena da galinha com os pintinhos embaixo das asas, eles vão passar a Páscoa “com a galera” em Atlântida. Foi-se a época do abraço de urso matinal. Pais serão ouriços do mar por algum tempo.

Parece que sobraremos eu e a gata, aos domingos, na frente da TV, de pantufas. Eu lhe farei cafuné e ela me fará companhia. Na vida animal é assim: quem não tem cão caça com gato.


PS: procurou coelho da páscoa nesse texto? Já disse, não existe. É mais uma dessas ilusões da vida. Feliz Páscoa!

22/04/2011

Sexta-Feira Santa

SEXTA-FEIRA SANTA
(Tatiana Druck - Par e Impar/2010)

Não quero te render numa teia
de assuntos

quero ser tua mulher-aranha
parceira

te tecer
mosca e caranguejeira

despe, incendeia, enlouquece
devora a presa

e então passeia

pela feira
com ar de santa

numa sexta





15/04/2011

SERIAL KILLER - em tempos de desarmamento


Que o pessoal da campanha de desarmamento não me ouça, mas eu não vivo sem o trabuco que guardo sobre o armário da sala. Nem vem. Nada como ter o poder na mão. É uma questão de autodefesa, é claro, mas confesso que também tem a ver com vontade de matar: aaahhh... não há sensação mais revigorante do que exterminar vidas assim.

Pode me chamar de assassina, revoltada, desequilibrada, o que for, mas há noites em que sonho com as vítimas caindo indefesas no chão. Penso naqueles corpos estatelando e então acordo com um sorriso implacável no rosto. Por favor, senhor Sarney, nem pense em tirar a arma do alcance dos meus objetivos.

Eu sei da importância da vida, do risco das práticas de violência, e que tem a coisa da perversidade e tal. Mas confesso que me dá água na boca quando enxergo um mosquito rondando e penso que com um só golpe sua vida poderá ser eletrocutada. Então corro até o armário e pego lá de cima a tal raquete elétrica: tzááá! – detono o inseto que me roubaria o sangue. É mortal. Melhor que bazuca. Êta sensação de poder.

Tem toda uma técnica de manejo para o peteleco elétrico: tem que chegar por trás do moscão. Não é requinte de crueldade, é precisão. Se não o mosquito percebe e frustra a emboscada. A regra é: abordar por trás, em silencio, sem pânico, e com convicção. Sim, sim, parece hediondo matar por trás. Mas e eles, que atacam enquanto estamos dormindo? Sangue por sangue, sou mais o meu. Fora a sensação de extermínio, que não tem preço.

Bom mesmo é quando estão em bando, três ou quatro, que aí vira chacina. Vão tombando em série, que delícia. Ninguém sai impune. Autoridade se adquire com a arma na mão. Sem isso, estamos vulneráveis.

E não me venha falar de tamanho, prevalecimento, desequilíbrio de forças, e blá blá blá. Injustiça é levar ferroada sem poder morder de volta o inimigo porque ele voou para trás da geladeira ou passou por baixo da porta. Cada um com suas armas. Deixa eu manter a minha em cima do armário.

14/04/2011

Chove

Gosto da chuva enquanto água. Não gosto do desconforto que ela provoca na vida, nos deslocamentos, nos horários.
Gosto que a chuva limpe, mas não gosto da umidade que põe nos cabelos nem nas lâminas de aquaplanagem.
Gosto da purificação, não da lambança de capas, botas e sombrinhas.
Gosto do frescor da chuva, mas não da nuvem preta que acompanha sua presença e escurece o resto do dia.

Bem que a chuva poderia ser feita de água e não de lágrimas.

12/04/2011

notícia boa

Recebi com muita alegria a notícia de que o poema "Olhar Resposta" foi classificado em 1º lugar no XXVI Concurso de Poesia Brasil dos Reis, no Rio de Janeiro. A solenidade de premiação será em maio e, se tudo der certo, estarei lá! No dia seguinte, é oferecido pelo Ateneu Angrense de Letras e Artes um lindo passeio de veleiro pela baía de Ilha Grande, com almoço na Gipoia. É nóishhhh...
Após o evento, publicarei neste espaço o poema vencedor.

09/04/2011

O DESFAVOR DA NOTÍCIA

A cada manchete de jornal que leio sobre o horror ocorrido na escola pública do Realengo dá vontade de comprar todos os exemplares e trancar num depósito. Se eu pudesse, proibiria a divulgação do fato. Tenho medo do quanto ele pode influenciar outros insanos a fazerem o mesmo. Posso estar enganada, mas minha sensação é de que a veiculação de uma atrocidade dessas sugestiona mais malucos a cogitarem a notoriedade post mortem.

É claro que se trata de um fato real e não se discute que é excepcional, grotesco, um desequilíbrio de conduta com inúmeras causas; e a psiquiatria está aí para tentar dissecá-lo.

Entendo que há uma necessidade coletiva de acomodar esse acontecimento monstruoso dentro das nossas cabeças mortais. Buscamos explicações. Estamos sem palavras, então lemos e ouvimos, para crer.

É claro também que a mídia vive da notícia, e que informação é informação. Sei que nós, os leitores, compramos e bebemos o sangue das tragédias, por mais nauseante que seja a sensação depois. A curiosidade é humana. O sensacionalismo é sedutor.

Mas a mídia também forma opinião e influencia comportamento social, sobretudo em crianças e jovens. Estudos nos EUA demonstram que até 30% das ocorrências de atos de violência, sexo e uso de drogas são atribuíveis à influência da mídia (sic. Comportamento de Risco na Adolescência, Jornal de Pediatria 77, RJ, 2001). Sabe-se que a mídia tem poder sobre comportamento e cultura, mesmo quando atua na retaguarda, após o fato. No Brasil foi o primeiro caso de chacina desse tipo mas, e se essa onda pega? Dizem que, numa dada época em Porto Alegre, virou moda suicídios no viaduto da Borges de Medeiros procedido da publicação da carta de despedida pelos jornais locais. O suicida enviava suas derradeiras palavras à Zero Hora e ao Correio do Povo e dirigia-se à ponte para o último salto. Parece que a notoriedade assegurada pelos jornais, encorajava.

Tenho evitado TV, jornais e revistas, é demais para o estômago. Além disso, fico desconfortável com essa sensação ruim de má influência comportamental. Tenho medo que essa modalidade de suicídio a la homem-bomba seduza outros olhos fracos e vire moda.

08/04/2011

Fernanda LimDa




Se eu tivesse lábios como os da Fernanda Lima

não pronunciaria palavras roucas,
não sambaria na avenida pintada de purpurina
nem animaria auditório de loucas

Eu apenas sorriria com os cantos da boca para cima.




07/04/2011

Dia Mundial da Saúde


É véspera de Páscoa.   Patrick, 10 anos, pede de presente... um coração.

Patrick deveria pedir ovo de chocolate, balas de gelatina, jogo de videogame, um IPod Nano,  mas ele pede um coração. Não há agrado mais vital para esse menino. Nada lhe faz mais sentido. Há pressa em viver.

Os pais, com o coração na mão, aguardam por doação desde 2009, na lista de espera de transplantes.
No Brasil, a cada milhão de pessoas, apenas sete são doadoras. E isso que o índice subiu recentemente. Mas é muito pouco. Há mais de 70 mil receptores aguardando na fila. Faltam consciência e atitude individual para a doação e, claro, também falta investimento do governo no sistema.

Saibam: tudo o que há em mim está disponível após a morte. Levem as roupas que visto, as poucas jóias, minha coleção de livros preferidos, mas por favor levem também o fígado, o pâncreas, as córneas. Pulmões, rins, o que servir. Já estou em pedaços por conhecer a dor de Patrick. Viver é um privilégio, e doar é o mínimo que posso fazer em troca da vida que tenho. Levem meu coração. Mas não hoje, que está em ritmo descompassado, espasmódico, sistólico, disforme. Levem após a morte.

De coração partido, rezo por Patrick. E rezo para que as pessoas em geral estejam mais atentas à dura realidade dos que necessitam daquilo que elas nunca mais vão precisar. Doem órgãos após a morte. Não dói. E ainda é uma forma de perpetuar. Há gente necessitando a todo instante.

Desejo que um coração nobre chegue urgente ao corpo de Patrick. Cada minuto já é bem mais do que ele deveria esperar por esse presente. Tum-tum, Tum-tum, é o Tic-tac de Patrick.

30/03/2011

Era Uma Vez em Garibaldi...




E viveram felizes para sempre. No pântano. The end.


Poderia ter sido assim o final feliz do casamento de Denise Flores e Marcelo Basso, mas foi uma polêmica só. Levaram advertência da Igreja Católica, saíram como noticia na mídia internacional, tiveram que conceder entrevista no meio da lua de mel. Esse casamento já começou um inferno. Mas desconfio que a confusão toda não tava prevista no script, mesmo sendo um casamento assim, do tipo dreamworks animation. Vai ver só o que faltou foi Andrew Adamson para dirigir melhor a cena, que o espetáculo não era de todo mal, que tinha um recado profundo no enredo, ah, tinha.



Indagada sobre os motivos da pitoresca invenção, a noiva explicou mais ou menos assim: Shrek e Fiona, embora sejam ogros e feios, têm coração. Eles encontraram o amor sem preconceitos. São personagens com atitude. Eu sei que não convenceu à maioria, mas eu gostei da resposta e da atitude provocativa do casal. Quem não quer que o casamento seja um conto de fadas? Ser feliz para sempre com seu amor, no pântano, no deserto, nas montanhas, na cidade grande, seja lá onde for? Eis a questão: todos que casam querem a felicidade eterna, mas poucos assumem realmente que a felicidade do casamento é ficção. O amor dá trabalho. Relacionamento dá trabalho. Shrek e Fiona (os do filme) encararam o desafio: diante dos olhos descrentes de todos (a começar pelos seus próprios) entenderam o amor.



Shrek era um ogro ranzinza e solitário por opção. Encontrou-se com Fiona por obrigação, não por escolha. O objetivo não era encontrar o amor, mas salvar o pântano da destruição. A missão que precisava cumprir para tanto era a de libertar a aprisionada Fiona, que na ocasião ainda era linda - uma princesinha! - e ele não gostou, o louco. Esmola demais para o santo. Shrek então seguiu seu propósito original, insensível à possível sedução de Fiona e, na estrada, os dois foram se conhecendo. Lá pelas tantas, literalmente sem querer, Shrek acabou tropeçando no amor e – ops - sentiu a pedra no caminho. Pareciam espécies tão diferentes, mas... surpresa! : apaixonaram-se. Shrek parou para pensar com o coração. Acho que isso não aparece na cena, mas pude vê-lo no filme fazendo contas: o quanto, e mais quanto, e mais quanto, iria ter que se incomodar pelo amor de Fiona. A escolha do amor dá trabalho. Mais que matar dragão. Ele não fez conta sem razão, não. Sabia o que teria pela frente e topou. Apostaram juntos. Lutaram contra adversários ferozes como o preconceito - okei, teve um pouco de dragão de verdade no meio da história, mas não conheço bicho mais assustador do que o preconceito. Venceram. Triunfaram com esforço de verdade, assumindo a decisão de se casar, embora Shrek não fosse propriamente um príncipe.

Voilá! Quer cena mais encantadora? Na vida real, longe de sermos personagens de conto de fadas. Come on, estaríamos mais para ogros do que para príncipes. Mesmo assim, o amor pode reinar. Para tanto é preciso acreditar com consciência. Não numa fantasia, numa idealização, num conto da carochinha, mas na história de verdade. Há que buscar as vantagens dela, driblando os desafios diários. Conto de fada  é antes de tudo um conto de - é crer num acontecimento do destino e, sobretudo, arregaçar as mangas pela causa.


Eu acho o animée de Shrek-e-Fiona bem mais real como exemplo de casamento do que o Príncipe Charles e a Lady Di (para usar um exemplo realmente real) que, aliás, teve carruagem e tudo. Esses casamentos arranjados, de interesse, não deveriam ser criticados pela Igreja? E os cheios de pompa, como o de Liz Taylor e Larry Fortensky, não mereceriam advertência pelo excesso de glamour? Por que os casamentos na praia, ou no campo, seriam menos sérios? Só pelo fato de não ter o templo como entorno? E o conteúdo, não vale? E a consagração do amor puro, onde fica nesses casos?



Ainda: se esse casamento de março de 2011 tivesse acontecido no século XII, não teria sido um casamento medieval típico? Acho que o ritual escolhido pela cabeleireira e o empresário para a celebração do casamento foi também um santo recado para a igreja, para que regulamente com clareza a forma que exige à cerimônia religiosa do casamento, visto que repreendeu a manifestação atípica do casal, considerando-a “constrangedora”. Não vale deixar a questão para o bom senso num mundo de movimentos tão espontâneos e livres. Se há punição ou repressão, tem que haver regras a propósito. Fico perdida: Bispo vestir túnica com estola e Papa usar casula bordada a ouro e capacete enorme e esquisito, pode? Um pretinho básico atenderia melhor a simplicidade recomendada à vestimenta.



 
Sei que quando entra religião no assunto tudo fica mais complicado, preso a dogmas e, por que não, condicionado a pré-conceitos. Eu respeito, ou melhor, entendo. Talvez seja mais fácil para mim, que sou laica, pensar que minha religião é o Amor e achar que Deus quer apenas que sejamos felizes. Que não importa como, onde, muito menos o que estaremos vestindo nos momentos de felicidade. Soa-me mais natural pensar como Shirley Maclaine aceitando que “sou feliz várias vezes ao dia”. Felicidade pra mim é isso: é o prazer que encontramos aqui e ali; é a paz de saber que estamos quites com nossos propósitos; é a liberdade das escolhas.


De qualquer forma, ou - vá lá - de forma estranha, Denise e Marcelo se escolheram e escolheram celebrar o casamento. Assumiram o amor e suas conseqüências. Capricharam no capricho: convenceram padrinhos, pajens, convidados e até o Padre a aceitarem sua vontade de encenar os personagens de um filme de Hollywood. Todos entraram em cena. Foi inédito, foi lindo. E nem era num reino Tão Tão Distante. Era ali em Garibaldi. Pode não ter dado bilheteria, nem Oscar, mas deu pano pra manga -bufante.

18/03/2011

Dia Internacional do Sono

Acordei tipo assim, meio sonolenta.
Levantei trôpega e fui fazer café, caminhando pela metade - a alma seguiu deitada na cama, pedia uns minutinhos mais de soneca. Em ato de solidariedade voltei e ajeitei o despertador para às 6:20h, apaguei a luz do abajur, cobri minha alma com edredom leve e sussurrei baixinho: Fique, fique mais um pouquinho na cama, hoje é o Dia Internacional do Sono.

Então caminhei em passos muito suaves para a cozinha, o corpo esvaziado de qualquer consciência, buscando automaticamente o cheiro do café preto como quem procura o seu próprio sentido.             


                         

12/03/2011

Dia Nacional do Bibliotecário

NA BIBLIOTECA                                                           
(Tatiana Druck)



Escolha suas opções
entre histórias, sonhos, mapas, poesia, canções
guia, manual, minutas, roteiros, dicionário
e consulte o sábio bibliotecário
com práticas recomendações

A biblioteca é mundo infinito
labirinto de letras
calendário asteca
conglomerado de cidades
um caleidoscópio de múltiplas verdades


Biblioteca é templo ecumênico, é retiro, é recanto,
Meca, casa de todos os santos,
castelo de boneca


Não há proibições, só encontro
com diferentes crenças e muitas gerações
- livros são motivos
convites vivos para realidades e ficções


Lembrete de cabeceira:
De segunda à sexta-feira
a biblioteca tem produtos na prateleira
sem prazo de validade.



09/03/2011

Quarta-feira-de-cinzas

                     DESENREDO DE SAMBA

Nem rugira o leão da cuíca
e despencou-se a fantasia
tipo planta de outono
- caiu bamba aos poucos

A ala rodou a baiana antes da hora
alegoria pareceu velório
o samba virou rumba mais cedo

Em meio a rumores esparsos
saltimbancos tomaram o asfalto
frieza fez par com o medo

Ouviu-se um “shhh” de segredo
e garis saltitantes se encarregaram do resto:
a limpeza das calçadas

Bailarina tirou o sapato
observou seus pés de palhaço
de duas cores

Nem rugira o leão da cuíca
e ela partiria lentamente
como cinza ao vento

Antes de deixar o aquecimento,
sacudiu o tule, espanou os ombros
e ao ouvir que o ronco da cuíca começava

expulsou da avenida larga das suas costas
todas as mulatas que a habitavam
e também aquela passista de voz embargada

que exigia respostas

08/03/2011

Dia Internacional da Mulher

PARADO XX O
(Tatiana Druck)



Que mulher somos?
um dia certo no mês de março
e um ano todo para cuidar dos nossos
olhos, filhos, afetos, trabalhos e desmaios
ao longo do calendário

Que mulher nos resta de brinde                        
ou contingência
ou garantia
ou ganância

malabarista, puritana, ativista, madame, mundana
erudita, sensual, cibernética, espiritual
eclética, cansada
coca light, whisky sem gelo,
baba de moça, chá de jasmim

Que mulher tocou pra mim, afinal -
a que abraça o mundo ou a de mãos atadas?

Que mulher somos?
Assopramos feridas,
viramos de ponta cabeça,
reviramos lixo,

com DNA maiúsculo de bicho
e um H pra lá de humano.

07/03/2011

Leituras de Mundo

Foi muito generosa a resenha e crítica feita pelo jornalisra e mestre Romar Beling na Gazeta do Sul e também a postagem no seu blog: Leituras de Mundo (http://www.gaz.com.br/blogs/leiturasdemundo/posts/3297-par_e_impar.html).
É com impulsos generosos como este que o autor estreante leva adiante a lapidação da sua arte bruta.

Par e ímpar, de Tatiana Druck. Porto Alegre: Mecenas; TAB Editora, 2010. 115 p.
O Par e ímpar configura a estreia de Tatiana Druck na poesia. E há no livro tudo o que rima com a melhor literatura. Carioca radicada em Porto Alegre, mereceu, a título de apresentação, palavras elogiosas de Luiz Coronel e Cíntia Moscovich – é egressa das aulas de criação literária do curso que Cíntia ministra. Mas nada é mais contundente do que seu próprio verso para confirmar a eficiência do seu radar na prospecção do mundo interior. Tatiana brinca, ousa, desarma, e de novo arma; a poesia tem, entre outras tantas virtudes, a delícia de subverter lógicas no amor, na dor, no desenraizamento, na arrogância. Onde a palavra poética reina, toda certeza e toda tristeza vivem sua quarta-feira de cinzas; a teoria é esquadro, a realidade é mão livre. Um drops, o poema Esboço: “Abriu a caixa / saiu da casa / perdeu o chão / quebrou a asa / pisou em vão / disse que sim / disse que não / pensou em esquadro / e rabiscou à mão”.

23/11/2010

Boleiras


Meu pai leu o jornal de ontem e me ligou perguntando o que faziam as três filhas dele de chuteiras no Especial do caderno de esportes do Correio do Povo:

- Putz, pai, onde foi que tu errou?!?

rsrsrsrsrsrrsrsr...

07/11/2010

Par e Ímpar na Feira!


Primeiro, a queridíssima recomendação do LP Faccioli no blog da Band News para aquisição na Feira do Livro de POA:  www.bandrs.com.br/emporiocultural/index.php?main=coment&id=318 .


Depois, o Par e Ímpar bem posicionado nas Bancas 47 e 110.



Por fim, a pessoa aqui, contemplativa, mais criatura do que criação.

27/10/2010

POLVO PAUL 2008 - 2010 (Carta de Povo para Polvo - 16.7.2010)

Em homenagem ao querido Paul, que morreu ontem no Aquário de Oberhausen, publico uma carta que escrevi em julho de 2010. Nela, faço um pedido a Paul, em nome do meu povo. Acho que essa carta nunca chegou às oito mãos de Paul. Pudera, em vez de remeter ao Sea Life Center, na Alemanha, enviei à revista Jogando com as Palavras, que reunia textos referentes à Copa do Mundo. Desculpa, Paul, o meu erro de destinatário.  




UM PAPO DE POVO PARA POLVO

Eu sei que ofereceram mais de trinta mil euros por adivinhações da sua cabeça, Paul, enquanto lulas gratinadas no melhor restaurante europeu custam certa de vinte e cinco. Eu sei que você foi o craque da Copa do Mundo e que mobilizou a mídia de tal forma que seria justo se você aparecesse na festa de encerramento fardado com roupa de borracha da Nike depois de ter assinado (a oito mãos) alguns contratos milionários. Você saiu bem na foto. Muito melhor que a Jabulani, muito melhor do que a Shakira e, infelizmente, melhor também que a seleção brasileira. Certo, você é a autoridade, o senhor infalível das grandes previsões e daqui a pouco já não se discutirá em alta cúpula se as tropas americanas devem invadir Iraque ou Afeganistão; tudo dependerá da direção em que você apontar seus tentáculos – prepare seus palpites, Paul, Barack Obama poderá lhe procurar com dilemas importantes.
Então eu sei que você não tem tempo para minhas angústias, e não me daria ouvidos nem se eu prometesse amá-lo por toda a vida e acordá-lo diariamente com um prato de mexilhões. Eu reconheço que faria muito mais, eu dividiria um aquário pequeno no subúrbio, controlaria a temperatura da sua água, me avizinharia de arraias traiçoeiras, compraria pessoalmente as oito alianças de noivado, gastaria meu salário em ostras, tudo para agradá-lo e tê-lo ao meu lado, guiando minhas decisões, das mais rotineiras às mais complexas: - e agora, querido Paul, açúcar ou adoçante? Esquerda ou direita? O vestido decotado ou aquele tailleur clássico? Poupança ou CDB? Céu ou purgatório? E você, como um poderoso chefão, ali, dando as coordenadas nas encruzilhadas da vida, tipo GPS particular. Ah, eu faria sacrifícios indescritíveis por você, Paul, acredite.


Mas sei que minhas promessas não significam nada perto do que o mundo tem a lhe oferecer. Você mora numa Alemanha perfeita e organizada e já é questão de Estado na Espanha, cujos ministros estão promovendo medidas extremas por sua adoção. Você tem o puro sangue inglês de nascimento, trejeito elegante, pele sensível, e é um sujeito frio, frio como um pecilotérmico marinho deve ser. Você não iria querer mistura com minha raça.

Por isso, Paul, em vez de um pedido de casamento, trago, nesta carta, um pedido de socorro, de povo para polvo: eu vivo num país sofrido e de definições pouco confiáveis. Esse país receberá a Copa do Mundo em 2014 e você não pode imaginar a quantidade de escolhas certeiras que precisaremos para que esta oportunidade não se transforme num caos social e econômico. Necessitamos de sua preciosa ajuda até lá. Mais do que todo o mundo.

É claro que gostaríamos de vê-lo ao vivo e a cores na próxima Copa, Paul, esteja certo de que o receberíamos com pompas de autoridade. Mas sua vida de cefalópode é curta, e você já se encontra na maturidade. Infelizmente, é pouco provável que nos vejamos em 2014. Então, antes que o mundo deposite dilemas e mais dilemas sobre suas costas invertebradas acabando com sua paz, antes que os predadores humanos desgastem suas ventosas com questões complexas até que você sucumba, pense nas questões existenciais banais, da sobrevivência e da reprodução e então... fuja, Paul! Fuja para o Brasil e descanse enquanto é tempo. Tire férias. Desfrute do clima temperado e das nossas praias maravilhosas. Usufrua nossa amigável hospitalidade. Seja bem-vindo. Relaxe seu corpo mole de polvo. Coma ostras. E sobretudo... reproduza!! Para o bem dos polvos e felicidade geral da nação, rogo-lhe que antes de aposentar suas chuteiras de artilheiro invicto, Paul, deixe-nos a alegria de um sucessor brasileiro para a Copa do Mundo de 2014, que atenda pelo nome de... Paulinho.




27/09/2010

Inimputabilidade



Tá, vou ter que dividir essa. E encher a boca do Blog-filhote de alfafarelatos, já que nada mais me surge senão falar da vivência, que têm sido tão, tão, digamos, transbordante de acontecimentos e, juntando isso com o trabalho, quase não dá tempo de pentear o cabelo, o que dirá criar ficção. Então é o seguinte: a história é do meu aniversário de quarenta (credo, quarenta???) e se passa na Bahia. É que não foi só um dia de aniversário, foi uma semanona de comemorações, tipo semana da pátria. Me sinto uma instituição. Tá certo que quarenta a gente não completa todo dia, só quando chega no primeiro terço da vida, mas, por mim, as pessoas fariam semanário de aniversário todo ano, e em qualquer idade. Bem, deixemos isso prum bom projeto de lei pós-moderno. Como eu ia dizendo, visto que a alegria encompridou-se por uma semana, e eu vivi muitas, mas muitas descobertas mesmo, fiz um diário. Tipo aqueles dos doze, treze anos. E vou colocá-lo aqui, na boca do bicho, dia por dia, em ordem cronológica, a começar pelo dia 11/09, quando tudo começou, em “A Metamorfose” (ou “o velho truque de mudar de idade mudando a latitude e a atitude”).
Uma prima assegura que envelhecer é bom porque a cada ano vamos ficando mais inimputáveis. Acho que a gente vai podendo mais, mesmo. Fazer, falar, decidir,comer, pensar. Compensando a quantidade de desvantagens (sim, porque sem essa de que “tá tudo cada dia melhor”, porque não é bem assim; há coisas melhores e outras mais caídas e murchas - sem hipocrisias), voltando ao assunto: pra compensar as desvantagens, acho que a cada ano a gente deve menos explicações ao mundo. Chega uma hora em que a gente pode tudo, até arrotar alto sem medo de ser multado. E isso não deixa de ser uma forma de rejuvenescer. Acho que foi isso que a prima quis dizer com inimputável. Bom, minha caminhada oficial rumo a inimputabilidade começou, então, no dia 11, com o velho truque, aquele.