04/10/2012

Dia do Cão


THE END

Soltei em ti os meus cachorros
encontraram teus gatos mansos
foram ver televisão

Cansaram da cena de cinema
do papel clichezento de inimigo mortal
e alguém sempre morrendo no final

01/10/2012

Dia Internacional da Terceira Idade



OLHAR RESPOSTA

Cinqüenta anos depois
a sós
espio pela fresta fina
dos olhos com que hoje te vejo

sinto nós dois e
ainda percebo a cor carmim do desejo
cobrindo tua íris de luar

então entendo
por que aceitei teu amor
sem tocar a boca de menina

- eu disse sim ao teu olhar
muito antes do primeiro beijo




1º lugar categoria nacional
XXVI Concurso de Poesia Brasil dos Reis/RJ - 2011

27/09/2012

Dia Nacional do Idoso




Fórmula para depois dos noventa


Frio na barriga num avançado ponto
da existência?
Experimenta misturar:
água com gás, gelo seco,
eucalipto e halls de menta.

21/09/2012

Dia da Árvore


EM ARBORIZAÇÃO


Quisera ser pra sempre um Jasminzinho

Canela-rosa, Erva-santa
Dama-da-noite, Amor-Perfeito
teu Lírio da Paz.

O sol bateu e bem-te-vi não apareceu.
Como um Chorão, entristeci.


Lá vou eu, Imburana-de-espinho, Pindaíba-preta
Canudo-amargoso, Maricá sem flor 
Pata-de-vaca, Embiruçu-peludo

Entre um inverno e outro eis que chega a primavera -
abre olhos, bocas e botões

O Infalível tem ramos acinzentados
tronco tortuoso e por cima é feio.
Jacarandá é a árvore mais linda que há
- mas só por dois meses e meio.
A Aroeira, tão condenada, tem copa globosa.
A Guaximinga, nome feio e flor perfumada.

Nem só frutos, nem só folhas
Só larva ou só maçã
Perdas entre escolhas
Aqui floresce o Ipê; lá, o Manacá
Do galho seco vem a romã

Em cada canteiro um encanto
por diferentes tempos e cheiros
Tudo brota do seu jeito

E o Para Sempre, não há
Nem na longa vida do Jequitibá.

17/09/2012

Dia Mundial da Compreensão

louca
 
MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA  
Chegue de mansinho
evite insistência
ameaça ou condolência
perceba o cabelo
não erre seu nome
nem sejas louco
segure firme
assobie fino
finja que tá tudo normal
que aos poucos
passa
a TPM mensal
 













12/09/2012

Da série Celebrando as Amizades de Valor

QUENGAS DO NOSSO BRASIL
quengas 
Tenho uma amiga cujo ímpeto eu admiro. Ela mora em Itacaré, para onde foi em busca de paz. Éramos colegas de profissão, conduzíamos centenas de processos judiciais e dezenas de incomodações. Fafá trocou as pedras no sapato por um leve par de havaianas e – até mais ver!.. - aposentou-se antecipadamente. Ela teve a coragem de poucos: trocou conforto por simplicidade. Champagne por água de côco. Escritório por bico. Capital por vilarejo. Um milhão e meio de porto-alegrenses por um punhado de baianos alegres e desprendidos. Fafá trocou cidade por paraíso. Levou junto o parceiro e o ímpeto de radicalizar.
Fafá ri com sabedoria, reflete com graça, me diverte e inspira. Tem sempre uma percepção diferente da vida, um apanhado imprevisível sobre a existência. Vez que outra conta cenas surreais captadas da vivência rústica no seu blog “Dinoráh com agá no fim” (http://www.dinorahcomaganofim.blogspot.com.br/), vale checar.
Estive com ela duas vezes na Bahia, e com certa frequência nos visitamos por e-mail (é desses que quando vejo na caixa de entrada corro a abrir ansiosa como se fosse ovo de páscoa). Tem sempre um relato sábio e risível (pra mim, o binômio da boa história). E é acontecimento tão sublime que costumo ler o e-mail em voz alta, compartilhando-o com o marido durante algum momento nobre como o café da manhã, porque sempre gera descontraídas gargalhadas, seguidas de debates filosóficos, ou seja, um prosaico momento de prazer.
Pois ontem recebi e-mail da Fafá. Ela contava sobre o 7 se Setembro em Itacaré, quando ajudou a organizar o desfile da escola pública onde leciona: “Tinham vários temas, entre eles, é claro, Jorge Amado. Então as crianças deveriam representar diferentes personagens das suas obras. Logo a fila das "quengas" ficou enorme – todas as alunas queriam sair de quenga! - que vergonha”.
Minha primeira reação foi imaginar a cena e rir. Logo depois, bateu a tristeza pelo que representa esse rico dado sociológico. É triste que meninas em plena fase de sonhos, fantasia e idolatria valorizem a sedução como atributo máximo de valor, a prostituição como carreira.
Não esperaria identificação da jovem brasileira com Joana D’Arc, Cleópatra, ou Anita Garibaldi (pra ser mais local). Mas por que não a heróica Lívia? A corajosa Malvina, a refinada Ester? Ou mesmo Gabriela, alegre e trabalhadeira, com sua sede de liberdade e valorização do amor acima dos interesses materiais.
Nossos referenciais são pouco nobres, pouco promissores, sem ambição ou talvez esperança. No Brasil, rapaz de sucesso é Neymar - que além de jogar bola, tem uma fila de quengas de vestido curto atrás.






06/09/2012

Bípede Retumbante



Tive um tempinho extra de paz e saí de quatro patas a farejar os blogs favoritos da Bípede Falante que, para quem não sabe, “é tudo que eu quero ser quando crescer” - se rolar de vir a ser um blog adulto. Lembro que em 2010, quando aterrissei na blogosfera, já na primeira expedição de reconhecimento do solo estranho tive a sorte de encontrar a casinha dela, toda decorada de poesia, cores, referências, experimentações e muito, muito talento vibrando ao ar livre. Porta aberta, entrei de mansinho. Naquele espaço cuidadosamente arrumado fui ficando como bicho que logo se aninha. Rede não tinha, mas era como fosse de linho rústico - lembro de relaxar enquanto lia, pra lá, pra cá, embalando suspiros. Foi aí que a quadrúpede aqui - quiçá um ser rastejante em aprendizado permanente - entendeu que Bípede falava, ou melhor, escrevia, e desenhava. Descobri sua doçura, inteligência, sensibilidade. Além de falante, emocionante.
Faço este registro porque nem a conheço ao vivo (e olha que moramos na mesma cidade) mas lhe devo tanto. Sempre que posso visito sua casa como se fosse vizinha, e aos pouquinhos a de seus amigos, dos amigos dos amigos, e como é gigante e lindo esse latifúndio que acolhe a arte.


http://tatianadruck.blogspot.com.br/2010/05/passeando-par-ci-par-la.html



31/08/2012

Morte Digna - homenagem à resolução do Conselho Federal de Medicina que regulamentou a "morte digna" de pacientes terminais, publicada no Diário Oficial em 31.8.2012.



FAVOR DE ÚLTIMA HORA


Apenas abane
se eu ficar tonta
Assopre se lhe arder a falta
de resposta
ou de noção
Sente-se
segure o seu ar, somente
não me segure pela mão
Simplesmente entenda
meu não
O sul é o norte
para quem anda de costas
Então guie
por favor
o caminho
da livre decisão
deixe-me indo
Vire-se
sorria
permaneça

E antes que me esqueça
deseje-me boa sorte
no dia
da mortelibertação.

27/08/2012

Prove que você não é um robô

robô Tem muita coisa incrível nessa blogosfera. Andei zapeando por blogs de literatura nunca antes navegados e deixei comentários no que encontrei de legal.

Devo confessar que adoro a parte do “prove que você não é um robô”. Quando preencho a sequência de letras e números anti-spam do blogspot, é claro que não me contenho em fazer cara estranha e voz metalizada - por mais idiota que seja imitar voz de robô enquanto se digita.

Impossível tolher a imaginação: fico torcendo para errar o código e voltar uma mensagem dizendo: “você errou, você é um robô”.

É bem possível que eu seja e não saiba. Meu celular é um android. Para entrar no computador, preciso código de acesso. Saco grana com cartão magnético e biometria da mão. Para checar e-mail, informo usuário e senha. Blog, senha. Facebook, senha. Em casa, só o micro-ondas não exige senha. Por enquanto.

A vida é robotizada nas rotinas. Com o mesmo ringtone, o celular desperta às seis e quinze da manhã todo dia. Aperto um botão para calar a valsa, sento na cama, tomo um gole de água, tateio em busca dos óculos e levanto para tarefas automáticas. No meio deste passo a passo, alguns estalos de pescoço é tudo que tenho para provar que sou feita de ossos e tendões.

Pense bem, o que somos no engarrafamento se não robôs em movimento inconsciente e mecanizado? Primeira - freia – neutro – primeira – freia - neutro. Soldados que aguentam as agruras com nervos de aço. No ônibus, um passinho à frente, por favor. Ficamos parados em filas em modo loading, cumprimos a burocracia das repartições públicas. Céus, ouvimos campanha eleitoral sem jogar laranjas! Movimentos pacíficos, apáticos e pré-programados. E no fim aquele sorrisinho simpático-metálico, que é mais politicamente moderno do que o amarelo.

Então, prove que não é um robô.

 

19/08/2012

Dia mundial da Fotografia



REFLEXÃO

Fotografia é um pedaço estático de realidade.

Se a vida não fica parada para um clique automático,
por que registramos
o simples instante
como uma eterna verdade?















15/08/2012

Dia internacional da informática

tecla 
 
F5
Atualiza-me
com novos dados e tempos
Conta-me o que tens feito
nos últimos dez meses
Lembro apenas que era Natal
quando dei um control-alt-del.


02/08/2012

Olimpíadas 2012 - entre Micos e Gorilas...


"Antes de aprender a técnica, aprende-se a etiqueta; antes de praticar as artes marciais, pratica-se a moral." (ditado popular das artes marciais).


Impressionante o paradoxo das condutas olímpicas.


A judoca húngara Abigel Joo lesionou-se hoje durante a luta das quartas de final em que ganhava da americana Kayla Harrison. Que wazari, um wazarão! A americana não perdoou a vulnerabilidade da adversária e focou na perna lesionada. A húngara aos pedaços, metade atleta, metade gorila, não se entregou. Como um bruce lee guerreiro, lutou até a morte - mancando, gemendo, pulando num pé só, derramando dor sobre o tatame. Caiu de pé. Pé manco, mas de pé.

Foi então para a luta de repescagem contra a polonesa. Ainda machucada, mancou e chorou mas não se entregou. A força agora era espiritual. Perdendo e urrando de dor, agarrou-se com as duas mãos na fé da superação. Faltando 27 segundos para o fim do combate, surpreendeu a todos aplicando o uchi-mata mais bonito do dia – jogou a polonesa de costas no chão e ganhou a luta por ippon. Só pode ter sido benção do lendário dragão chinês.


Muda o bairro de Londres.


Na quadra de Badminton, a favoritíssima dupla de chinesas Xiaoli Wang e Yang Yu, número 1 do mundo nesse esporte, já classificadas, erravam saque de propósito, jogavam a peteca pro mato, cortavam na rede como se fossem minha avó, e não como donas do ouro olímpico de 2008. Isto tudo para pegar um confronto mais fácil na próxima fase. Já estavam classificadas e jogavam para perder, manipulando o resultado em busca de um caminho tranquilo (leia-se, sem luta) rumo à final. Corpo-mole estratégico das moças. Um desrespeito ao esporte e a quem pagou para ver. O lendário dragão chinês não perdoou a falta de ética desportiva e expulsou as chinesas da competição olímpica. Saíram vaiadas, anunciando aposentadoria, decepcionando o mundo.

 
Em lágrimas de vergonha, a dupla Wang-Yu despediu-se com um verdadeiro mico chinês.

 
Em lágrimas de dor, Abigel carregava seu gorila húngaro no corpo e encaminhava-se para a disputa de um bronze - que lhe valia ouro.

07/03/2012

Dia Internacional da Mulher

PARADO XX O


Que mulher somos?
um dia certo no mês de março
e um ano todo para cuidar dos nossos
olhos, filhos, afetos, trabalhos e desmaios
ao longo do calendário


Que mulher nos resta de brinde
ou contingência
ou garantia
ou ganância


malabarista, puritana, ativista
madame, mundana
cansada
erudita, cibernética, espiritual
whisky sem gelo ou chá de jasmim


Que mulher tocou pra mim, afinal -
a que abraça o mundo ou a de mãos atadas?

Que mulher somos?
assopramos feridas
viramos de ponta cabeça
reviramos lixo
com DNA maiúsculo de bicho
e um H pra lá de humano.

 
 

27/02/2012

FELIZ ANO NOVO!

bebê varrendo 

Volto quando o país todo volta à vida urbana séria: depois do Carnaval. Quarta-feira nada, a engrenagem começa sempre na segunda. Como a dieta do Garfield.

Tive um semestre de recesso no BichoBlogue, que, por ser hobby, tem que se acomodar depois das prioridades de trabalho e família. Ficou tudo muito apertadinho… então, a pausa. O bicho tem fome mas sabe esperar quietinho.

Tenho razões justificáveis para o recesso: entre tudo, passei arrumando a casa. Era preciso. Em julho de 2011 ganhei o mais belo presente da vida: uma nova filha. As circunstâncias do “parto” envolveram tristezas, mas ela chegou linda e saudável. Com 13, prontinha da silva. Nosso “bebê” tinha um leve ar de fragilidade envolvendo a alma forte. Uma vontade de estar em paz e a perseverança necessária para ir em frente. Já sabia caminhar firme. Logo tomou conta do espaço, da família, do clima, do destino. Capacidade de ser feliz vem de berço, o resto é construção. Ela teve uma mãe que a soube educar impecavelmente e amar com intensidade. Agora tem um pai que saberá conduzi-la com amor rumo à independência. Nesse cenário, estarei junto costurando a história. Foi um privilégio mágico que a vida deu. Estamos todos felizes. Tem irmã nova no pedaço.

E eu, mãe de trigêmeos adolescentes, praticamente, vou tentar ser frequente por aqui. Se não der, é por conta de alguma necessária pausa pra varrer a casa. Sempre que a barra tiver limpa, eu volto.

Desejo um feliz ano a todos! 

Para este reinício, publico um poema meu aprovado no último concurso Crônica e Literatura: prêmio literário Ferreira Gullar 2011.

 

 ponte

TRAVESSIA

Não tenha medo da tristeza - não é ponto de partida nem lugar de destino

Não é ninho, não é clausura

Nem é parte do corpo da gente

 

Tristeza é só uma ponte - com paisagem obscura.

Aponte o dedo para frente

e atravesse sorrindo

 

Estamos sempre de passagem pela loucura.

 

 

18/07/2011

ENTERRO DE ELEFANTES E OUTROS BICHOS GRANDES

uruguai time  Uruguai, um país chiquitito comparado à Argentina. O território é vinte vezes menor. A população de uruguaios é dez por cento a de argentinos. Dentro de campo, porém, são onze para cada lado e ponto. No futebol o Uruguai não tem inferioridade proporcional às suas dimensões. Basta ver o empate de títulos: 14 Copas América para cada país; 2 Copas do Mundo para cada seleção; 2 Olimpíadas para cada nação.

No jogo deste sábado se viu mais uma vez que o pequeno hermano não se intimida diante do irmãozão. Foi 1x1 no tempo regulamentar, 0x0 na prorrogação e, durante todo o jogo, mesmo com um jogador a menos, Uruguai parecia maioria, parecia maior, parecia urgente. Um gigante.

Eis o fator que sempre desequilibra: a raça (conhecida como “alma castelhana”). Jogadores que “ponen todo en la cancha”, regidos por um maestro, levaram o jogo aos pênaltis em favor do Uruguai, numa típica superioridade de espírito e de grupo.

Raça, o hormônio do crescimento. o elixir do heroísmo.

Foi assim que a celeste olímpica em 16 de julho sepultou definitivamente o elefante argentino num estádio de maus presságios, já apelidado de “cemitério”. Um Elefantazo.

messi chorando

E foi com o truque da raça que – também num 16 de julho – Uruguai enterrou o Brasil na final da nossa primeira Copa em casa, em 50. Davi contra Golias. O Maracanazo.

Nelson Rodrigues disse sobre Obdulio Varela, o capitão uruguaio em 50: “ele não ata as chuteiras com cordões, mas com as veias”.

E numa entrevista à Placar, o capitão confirmou o segredo: “O bonito não ganha jogo. Para ganhar é preciso luta, garra. O grito bem dado é um jogador a mais dentro de campo”.

Tiremos a lição. Raça faz as coisas pequenas ficarem grandiosas. Faz um time de onze parecer um exército de milhares. A raça é o verdadeiro craque.

De que adianta nascer gigante? O Brasil tem 8,5 milhões de km de território; quase 200 milhões de habitantes – e onze deles de salto alto num campo de areia fofa. Era o que bastava para um Canarinho grandão virar passarinhada deglutida por bicho pequeno com um pouco de farofa. Pato, ganso, um tucano novo com bico muito grande, gazelas saltitantes e outras aves de plumagem duvidosa, tipo corvo ou gavião. Tudo na panela com sabor indigesto para nós que torcíamos. Onde anda a pátria de chuteiras?

brasil seleçao

Elefantazo. Maracanazo. Brasil e Argentina e seus pesos pesados. Eu admiro (e invejo) os uruguaios. Gostaria que o futebol brasileiro tivesse menos graça e mais raça. Raça é o bicho.  

A raça é um gigante escondido dentro de cada um.uruguai penalty

23/06/2011

FERVURA EXISTENCIAL

vulcao É assim. Um dia você acorda com um mal estar, um aquecimento por dentro, gases e, de repente, puf! - explode. Normal. É o ápice de um processo de reequilíbrio. Elimina-se o conteúdo repentinamente desordenado e as coisas voltam à santa paz de antes.

A natureza sempre busca o equilíbrio, não seria diferente com o vulcão. Dentro da terra há um magma fervendo em calor absoluto - a superfície que habitamos é apenas uma crostinha, não se engane com a segurança do chão onde pisa. Eis então que o magma ferveu mais, e mais, e liberou gases, e procurou saída, algum buraquinho - tal como o corpo humano faz para expulsar seus desagrados – e veio a erupção em forma de lava, cinzas e poluição espontânea.

Hoje estamos, cof, cof, cof, respirando essa fumaça impactante e nos intoxicando de reflexões bobas a respeito da existência. Fervemos a mídia e nossas cabeças com questionamentos abismados, como se os desastres naturais fossem coisa contemporânea, moda nova do planeta, alguma revolta dos Deuses. Geeeente, é simplesmente a Terra se reordenando normalmente, como faz há quatro bilhões de anos! O ego humano é que tem dificuldade de aceitar que nós, os seres inteligentes, não passamos de insignificantes grãos de areia no deserto.

É duro saber que não podemos tampar um vulcão com o dedo, nem segurar com a mão os terremotos, não é mesmo? Nossa característica auto-centrada tende sempre a achar que estamos no epicentro do controle, lá em cima da torre de comando do globo - tsc, tsc, tsc, pretensão tola... Então de repente vem a força da natureza mostrar quem é que manda no campinho. E daí ficamos meio abobados, aquela cara de “ah é, é?...”

A verdade é que o ego crê que somos atores principais quando somos meros figurantes do planeta. Mais precisamente, hóspedes. Estamos aqui de passagem, como já estiveram os Dinossauros e outras espécies de vida sobre a terra. Ora, o Homem habita esse planeta há apenas 30 mil anos (contando desde os caras da pedra lascada), enquanto os Dinossauros, por exemplo, perduraram por quase 200 milhões de anos. Ou seja, nesse albergue chamado Terra, somos visitantes de um final de semana, perto dos dinossauros. O planeta é um hotel rotativo, com critérios naturalmente competitivos para o rodízio.

Eventos que não estão sob o controle humano ocorreram e ocorrerão naturalmente, trazendo novas espécies de vida adaptáveis. Sabe-se de pelo menos cinco extinções em massa na Terra, a última delas acabou com os Dinossauros, e isso já foi há 65 milhões de anos. Calcula-se que a Terra terá condições naturais de suportar vida por mais uns 500 milhões, sabe-se lá se seremos nós os hóspedes até lá.

Não precisamos ter pressa, mas é sempre bom lembrar ao ego que estamos de passagem. Então a sabedoria é viver o momento presente, a nossa vez, em estado de relax - como uma temporada de férias. E aproveitar com alegria o nosso tempo sobre a Terra, antes que cheguem os meteoros e não reste nenhum poderoso ser humano de pé para, sabe como é, dar um peteleco no interruptor e apagar a luz - do sol.terra e meteoro     

03/06/2011

Arriba, Peña !!!

Não é só porque o namorido é uruguaio e torce pelo Peñarol, o que fazemos juntos desde que meu Grêmio ficou pelo caminho – e, ora bolas, no inverno faz toda diferença um casal torcer pelo mesmo time sob as cobertas. Essa circunstância por óbvio fortalece minha convicção. Mas tem também o merecimento da equipe, aliado à natural proteção dos mais fracos, que alivia a alma considerando que futebol é cada vez mais um business de cifra grande, com bolão pra cá, bolão pra lá - no bolso de dirigentes e atravessadores que não jogam um ovo.

 

Peñarol tem limitações técnicas, todos sabem, mas o time nunca disse ser mais do que é. Tem um pacto com a torcida do tipo “somos o que somos, se quiserem torcer assim mesmo, vamos dar o nosso melhor”. Peñarol é exatamente isso que apresenta, e vem chegando talvez com a mesma modéstia com que chegaram os uruguaios ao Maracanã na Copa de 50, despacito no más.

E como se não bastasse, além da humildade, coragem e garra, Peñarol ainda tem o gênio Alejandro Martinuccio, que é tudo-o-que-eu-queria-ser-quando-crescer (na carreira sênior do futebol amador feminino do Roda Sociedad, entenda-se) - isso se não der para ser cartola, para não suar tanto, sabe como é.

Por fim, guiando minha torcida pelo Peña ainda tem a causa humanitária, de socialização da glória. Assim como torço para que não se acumule a Mega Sena em mais de 10 milhões para que outras pessoas tenham o sabor da sorte grande, acho que Santos já teve demais. Alcançou a marca dos 10 mil gols, pariu Pelé, lançou Robinho, criou Neymar. Agora é hora do Peñarol, depois de 24 anos sem esse título, colocar a mão na Taça e comemorar o renascimento.


Pode ser problema de visão turva, mas acho que vi uma zebra preta-e-amarela caminhando despacito por aí...






30/05/2011

Novidades

Quando comecei este Blog, em abril de 2010, foi em razão do livro que eu lançava, o Par e Ímpar - alegria que compartilhei como uma mãe anunciando que seu bebê rosadinho nasceu. Também por reconhecer que o espaço virtual é o novo léxico universal, e o ditado dos novos tempos poderia ser “quem tem web vai à Roma - se não preferir ir a qualquer outro lugar”. Nem precisa mais ter boca, os dedos e uma boa conexão banda larga assumiram importância superior.

Contudo, reconheço que cresci em outros tempos. Por mais que eu domine os recursos básicos da era virtual, sou da época em que se gritava bem alto ao telefone para ter certeza de que o namorado lá na suíça escutaria. Não tenho vergonha de parecer arcaica, nem entro correndo na fila toda moderninha para comprar o novo Ipad2. Por outro lado, tampouco preservo o videocassete na sala nem choro de saudade do carburador. Nem lá nem cá.

Acho lindo o mundo evoluir tecnologicamente. E invenções boas são para ser usufruídas mesmo. Não por isso vou esconder que fiz cursinho de datilografia em 1980 porque era um diferencial competitivo saber “bater à máquina” com destreza - ora vejam.

Estou apenas constatando que novidades me surpreendem e mobilizam ao mesmo tempo. E também assumo que não sou lá muito rápida em recolher o queixo caído. Até hoje avião me espanta. Como pode um troço tão pesado levantar vôo como passarinho. Às vezes fico anos contemplando novas tecnologias até acreditar que – eureca! - elas funcionam. E naturalmente me atrapalho para usá-las com eficiência plena. Mas tento. Tento até cansar, porque o esforço de aprender, de adaptar-se, é tarefa do usuário.

Isso tudo para contar que passei um final de semana inteiro fuçando na web para inserir neste Blog um gadget de Boletim Informativo! Claro, não me servia qualquer modelo. Procurei um gerenciável por e-mail e que cadastre somente quem tiver interesse em receber atualizações do Blog, Deus me livre o Bicho sair por aí disparando coisas sem consentimento - que tecnologia tudo bem, mas desobediência da máquina ao dono é rebelião.

Então quem quiser se inscrever, adelante! Cadastre seu e-mail e receba os posts diretamente da boca do Bicho!

Beijokas com k, tipo pós-moderna.

18/05/2011

Seguro Auto Mulher – "porque elas tem um jeito próprio de ser"


É fato medido e constatado: elas colidem menos.
Por isso o seguro de automóvel para motoristas mulheres é mais barato que para o sexo masculino. Não importa que elas não usem o pisca-pisca e parem o trânsito para estacionar em amplas vagas. Ou que virem a cabeça e o tronco inteiro em vez de apenas olharem pelo retrovisor. Tampouco importa que insultem histericamente quando deveriam pedir desculpas. Que atropelem cones e outros obstáculos neutros como pedras e calçadas. Que chorem ao volante quando se perdem. E abanem para o pardal retocando batom pelo espelhinho. Não importa. As idiossincrasias femininas não contam nas estatísticas do seguro. O que importa para os contratos de seguro é o quanto as mulheres usam suas apólices, e nisso somos muito comedidas, resultando num bom desconto em geral.

Nosso comportamento de risco no volante é baixo, dizem as tabelas atuariais. Nossos problemas são outros. Por isso, foi bem oportuna a leitura de mercado feita por uma Seguradora brasileira recentemente. Recebi mala-direta anunciando um Seguro Auto Mulher – porque você tem um jeito próprio de ser, com “serviços exclusivos para suas necessidades, assim você fica protegida e evita aborrecimentos”.

Além da cobertura contra furto, roubo e danos, são oferecidas garantias inéditas como a troca de pneu (detalhe: sem limite de utilização), o acompanhamento até a delegacia, a isenção de franquia na primeira batidinha e – tchan, tchan tchan tchan – um Motorista Amigo para levar você e seu carro para casa após a meia-noite! Uau, nossos problemas estão resolvidos.

Faltou a publicidade esclarecer se o sujeito acompanhante é tecnicamente preparado. Significa dizer: se tem formação em psicologia e primeiros-socorrros. Convenhamos, acompanhar mulher sozinha em condições ideais de temperatura e pressão já não é tarefa simples, imagine depois da meia-noite. Vá saber o quanto o Motorista Amigo terá de ouvir, suportar, administrar. Uma rápida lista de suposições me veio à cabeça e concluí que pode ser mais complicado que colidir de frente contra jamanta.

Pense na situação: passa da meia-noite, a carruagem já virou abóbora. A moça segurada está sozinha e o Motorista Amigo é chamado para ir ao local acompanhá-la de volta ao lar. Tudo limpo até aí. Então começam os “es”: e... se a mulher estiver saindo de uma festa onde pegou o namorado cantando uma loirona vestida de Sabrina Sato? E se a infeliz ainda está em TPM? E se além disso for noite de lua cheia e véspera de seu aniversário? E se mandar o Motorista Amigo dar um cavalo de pau e estacionar em frente ao bar para acertar as contas com o cretino? E se – muito pior – pedir que rume para casa enquanto desabafa pelos próximos 50 km, hein? E se ela tomou umas vodkas russas (o soro da verdade) e está a fim de discutir, divagar e divulgar a relação? (Um DDDR básico), hein, hein? E se ela ainda por cima quiser saber a opinião do sujeito acompanhante?.. E...

Céus, fico calculando a relação de riscos e danos. Se o Motorista Amigo não estiver devidamente preparado para esse serviço opcional, irão por água abaixo nossos descontos especiais no seguro. O cara certamente ficará atordoado e baterá o carro violentamente contra um poste, com perda total - afinal, o Motorista Amigo é um homem no volante.






08/05/2011

Manhêêê

Há o tempo em que basta gritar manhê e a dificuldade fica instantaneamente resolvida: uma mão rápida para levantar, curativo na coxa, nescau quente de manhã, aquela brincadeirinha para aliviar a frustração, revisão antes da prova, beijinho de boa noite, essas coisas de mãe. Mãe atende a pedidos de socorro como se fosse garçom de bandeja na mão. Os 10% de gorjeta são contingenciais: só o fato de ser mãe quita a existência e gratifica as horas-extra. Ver o sorriso de uma criança, a felicidade do seu pimpolho, ah, esquece, isso nem o master card paga.


Aí um belo dia os filhos crescem e os pedidos ficam um pouco mais complexos: um aval no crediário, alguns importantes conselhos, o ombro amigo na hora das desilusões, aquele estímulo convicto do tipo ninguém é melhor do que você, meu filho, uma ajuda na escolha do vestido, na decoração da casa, na arrumação da mala, na mudança. Mãe passa a ser um cheque especial: está ali para quando você precisar, conte com ela. Os juros não serão cobrados. Acompanhar o crescimento e a realização de um filho remunera a alma.


Lá pelas tantas a gente também vira mãe (ou pai) e o socorro vem de outro jeito: mãe quebra um galho como baby-sitter adocicada dos netos, professora de temas aleatórios, conselheira catedrática, vira amiga, companheira, vizinha, guarda segredos. E ainda rola um cafuné. Mãe é mais torcedora do que técnica, é mais carta na manga do que número de mágica, fica na contemplação, na retaguarda, de reserva na casamata: você tem meu número, se precisar liga.

Então chega, ao fim, o dia em que mãe vira lembrança: não pode mais ser abraçada, não prepara a ceia de natal, não troca idéias, não aparece no domingo, não assopra pelo telefone aquela receita de doce, não segura mais a barra. A vida deixa de ser tão fácil e garantida, e nem tem a mesma graça. Não dá para gritar manhêêê como se gostaria, mas você pode senti-la. Você sabe o que ela diria nessa e naquela hora.  O DNA dela está ali, impregnado - dá para saber que mãe você teve só pelo seu jeito de sorrir, pelo tom que lhe soa um choro de bebê nos ouvidos. Você a tem. Ela não está ao alcance da mão porque está inteiramente dentro de você.