foram ver televisão
do papel clichezento de inimigo mortal
Um espaço onde todos os bichos que habitam a criatura se encontram. Principalmente os sem doma.
Tem muita coisa incrível nessa blogosfera. Andei zapeando por blogs de literatura nunca antes navegados e deixei comentários no que encontrei de legal.
Devo confessar que adoro a parte do “prove que você não é um robô”. Quando preencho a sequência de letras e números anti-spam do blogspot, é claro que não me contenho em fazer cara estranha e voz metalizada - por mais idiota que seja imitar voz de robô enquanto se digita.
Impossível tolher a imaginação: fico torcendo para errar o código e voltar uma mensagem dizendo: “você errou, você é um robô”.
É bem possível que eu seja e não saiba. Meu celular é um android. Para entrar no computador, preciso código de acesso. Saco grana com cartão magnético e biometria da mão. Para checar e-mail, informo usuário e senha. Blog, senha. Facebook, senha. Em casa, só o micro-ondas não exige senha. Por enquanto.
A vida é robotizada nas rotinas. Com o mesmo ringtone, o celular desperta às seis e quinze da manhã todo dia. Aperto um botão para calar a valsa, sento na cama, tomo um gole de água, tateio em busca dos óculos e levanto para tarefas automáticas. No meio deste passo a passo, alguns estalos de pescoço é tudo que tenho para provar que sou feita de ossos e tendões.
Pense bem, o que somos no engarrafamento se não robôs em movimento inconsciente e mecanizado? Primeira - freia – neutro – primeira – freia - neutro. Soldados que aguentam as agruras com nervos de aço. No ônibus, um passinho à frente, por favor. Ficamos parados em filas em modo loading, cumprimos a burocracia das repartições públicas. Céus, ouvimos campanha eleitoral sem jogar laranjas! Movimentos pacíficos, apáticos e pré-programados. E no fim aquele sorrisinho simpático-metálico, que é mais politicamente moderno do que o amarelo.
Então, prove que não é um robô.
"Antes de aprender a técnica, aprende-se a etiqueta; antes de praticar as artes marciais, pratica-se a moral." (ditado popular das artes marciais).
A judoca húngara Abigel Joo lesionou-se hoje durante a luta das quartas de final em que ganhava da americana Kayla Harrison. Que wazari, um wazarão! A americana não perdoou a vulnerabilidade da adversária e focou na perna lesionada. A húngara aos pedaços, metade atleta, metade gorila, não se entregou. Como um bruce lee guerreiro, lutou até a morte - mancando, gemendo, pulando num pé só, derramando dor sobre o tatame. Caiu de pé. Pé manco, mas de pé.
Na quadra de Badminton, a favoritíssima dupla de chinesas Xiaoli Wang e Yang Yu, número 1 do mundo nesse esporte, já classificadas, erravam saque de propósito, jogavam a peteca pro mato, cortavam na rede como se fossem minha avó, e não como donas do ouro olímpico de 2008. Isto tudo para pegar um confronto mais fácil na próxima fase. Já estavam classificadas e jogavam para perder, manipulando o resultado em busca de um caminho tranquilo (leia-se, sem luta) rumo à final. Corpo-mole estratégico das moças. Um desrespeito ao esporte e a quem pagou para ver. O lendário dragão chinês não perdoou a falta de ética desportiva e expulsou as chinesas da competição olímpica. Saíram vaiadas, anunciando aposentadoria, decepcionando o mundo. Volto quando o país todo volta à vida urbana séria: depois do Carnaval. Quarta-feira nada, a engrenagem começa sempre na segunda. Como a dieta do Garfield.
Tive um semestre de recesso no BichoBlogue, que, por ser hobby, tem que se acomodar depois das prioridades de trabalho e família. Ficou tudo muito apertadinho… então, a pausa. O bicho tem fome mas sabe esperar quietinho.
Tenho razões justificáveis para o recesso: entre tudo, passei arrumando a casa. Era preciso. Em julho de 2011 ganhei o mais belo presente da vida: uma nova filha. As circunstâncias do “parto” envolveram tristezas, mas ela chegou linda e saudável. Com 13, prontinha da silva. Nosso “bebê” tinha um leve ar de fragilidade envolvendo a alma forte. Uma vontade de estar em paz e a perseverança necessária para ir em frente. Já sabia caminhar firme. Logo tomou conta do espaço, da família, do clima, do destino. Capacidade de ser feliz vem de berço, o resto é construção. Ela teve uma mãe que a soube educar impecavelmente e amar com intensidade. Agora tem um pai que saberá conduzi-la com amor rumo à independência. Nesse cenário, estarei junto costurando a história. Foi um privilégio mágico que a vida deu. Estamos todos felizes. Tem irmã nova no pedaço.
E eu, mãe de trigêmeos adolescentes, praticamente, vou tentar ser frequente por aqui. Se não der, é por conta de alguma necessária pausa pra varrer a casa. Sempre que a barra tiver limpa, eu volto.
Desejo um feliz ano a todos!
Para este reinício, publico um poema meu aprovado no último concurso Crônica e Literatura: prêmio literário Ferreira Gullar 2011.
TRAVESSIA
Não tenha medo da tristeza - não é ponto de partida nem lugar de destino
Não é ninho, não é clausura
Nem é parte do corpo da gente
Tristeza é só uma ponte - com paisagem obscura.
Aponte o dedo para frente
e atravesse sorrindo
Estamos sempre de passagem pela loucura.
Uruguai, um país chiquitito comparado à Argentina. O território é vinte vezes menor. A população de uruguaios é dez por cento a de argentinos. Dentro de campo, porém, são onze para cada lado e ponto. No futebol o Uruguai não tem inferioridade proporcional às suas dimensões. Basta ver o empate de títulos: 14 Copas América para cada país; 2 Copas do Mundo para cada seleção; 2 Olimpíadas para cada nação.
No jogo deste sábado se viu mais uma vez que o pequeno hermano não se intimida diante do irmãozão. Foi 1x1 no tempo regulamentar, 0x0 na prorrogação e, durante todo o jogo, mesmo com um jogador a menos, Uruguai parecia maioria, parecia maior, parecia urgente. Um gigante.
Eis o fator que sempre desequilibra: a raça (conhecida como “alma castelhana”). Jogadores que “ponen todo en la cancha”, regidos por um maestro, levaram o jogo aos pênaltis em favor do Uruguai, numa típica superioridade de espírito e de grupo.
Raça, o hormônio do crescimento. o elixir do heroísmo.
Foi assim que a celeste olímpica em 16 de julho sepultou definitivamente o elefante argentino num estádio de maus presságios, já apelidado de “cemitério”. Um Elefantazo.
E foi com o truque da raça que – também num 16 de julho – Uruguai enterrou o Brasil na final da nossa primeira Copa em casa, em 50. Davi contra Golias. O Maracanazo.
Nelson Rodrigues disse sobre Obdulio Varela, o capitão uruguaio em 50: “ele não ata as chuteiras com cordões, mas com as veias”.
E numa entrevista à Placar, o capitão confirmou o segredo: “O bonito não ganha jogo. Para ganhar é preciso luta, garra. O grito bem dado é um jogador a mais dentro de campo”.
Tiremos a lição. Raça faz as coisas pequenas ficarem grandiosas. Faz um time de onze parecer um exército de milhares. A raça é o verdadeiro craque.
De que adianta nascer gigante? O Brasil tem 8,5 milhões de km de território; quase 200 milhões de habitantes – e onze deles de salto alto num campo de areia fofa. Era o que bastava para um Canarinho grandão virar passarinhada deglutida por bicho pequeno com um pouco de farofa. Pato, ganso, um tucano novo com bico muito grande, gazelas saltitantes e outras aves de plumagem duvidosa, tipo corvo ou gavião. Tudo na panela com sabor indigesto para nós que torcíamos. Onde anda a pátria de chuteiras?
Elefantazo. Maracanazo. Brasil e Argentina e seus pesos pesados. Eu admiro (e invejo) os uruguaios. Gostaria que o futebol brasileiro tivesse menos graça e mais raça. Raça é o bicho.
Aí um belo dia os filhos crescem e os pedidos ficam um pouco mais complexos: um aval no crediário, alguns importantes conselhos, o ombro amigo na hora das desilusões, aquele estímulo convicto do tipo ninguém é melhor do que você, meu filho, uma ajuda na escolha do vestido, na decoração da casa, na arrumação da mala, na mudança. Mãe passa a ser um cheque especial: está ali para quando você precisar, conte com ela. Os juros não serão cobrados. Acompanhar o crescimento e a realização de um filho remunera a alma.