06/04/2013

Socorrooooo!

Se existe receita pra tirar chiclete de tecido, curar dor de guampa, espantar mau olhado, ... ora, deveria haver uma solução simples para os incômodos spams – penso eu. Só que não consigo exterminá-los da minha vida. Pior que formiga no verão.


Depois de muito bufar, fui à luta: passei a adicionar os e-mails invasores um por um à lista de remetentes bloqueados, achando que assim controlaria a praga "no muque", mas a multiplicação em massa é tão mais rápida, que logo desisti – me senti o próprio Jaspion duelando contra o monstro que cria três novas cabeças a cada espadada, socorro.


Pois agora acabo de ler o anúncio do CGI.br: o Brasil saiu da lista dos dez países que mais enviam spam por e-mail no mundo! \o/  A notícia ainda não chegou na realidade da minha caixa de entrada, onde seguem brotando e-mails com oferta relâmpago de cinta modeladora, remédio para calvície, caneta espiã, viagra, colchão científico a preço de custo, dicas infalíveis para o bem estar, vassoura elétrica e maravilhosas importações xingui lingui.


Diz o jornal que a coisa vai melhorar a partir do bloqueio da tal Porta 25, um dos canais por onde saem as mensagens sem autenticação do servidor. Por mim poderiam trancafiar todas as portas, vedar, blindar contra fogo, aplicar veneno nas aberturas - vá que spams passem pelas frestas.


Não basta o tempo que perdemos checando o que realmente importa, também temos que ser leões de chácara do nosso próprio território, faxinar o lixo virtual antes que se alastre e tome conta da máquina, do mundo, isso não é o fim?


Sei (pelas propagandas que recebo via spam) que o envio de 50.000 e-mails representa para o anunciante menos de 1 centavo por cliente atingido, bem mais barato e rápido do que qualquer panfleto. Com a diferença que o internauta não pode recusá-lo, como faz o passante.


Pelamordedeus! Eu juro que não estou precisando limpar meu nome no serasa nem parar de fumar em dez lições. Não quero comprar boneca little children, pneus para motos, duas cafeterias pelo preço arrasador de R$599,80, obrigada, não desejo falar com o chefe do Zezinho, nem recorrer de multas de trânsito, e, definitivamente: não quero aumentar o tamanho do meu pênis em até 30%!!!


Eu só queria um spamnador.


Engraçado é que não entra propaganda de spamnador.



12/03/2013

Yes ou Si ?

Tem pergunta que não se faz. Tipo o clássico dilema “ou ela, ou eu” - qualquer pessoa com o mínimo de cautela evita a franca encruzilhada. Vá que.

Pois não é que neste domingo um referendo público indagou aos 1.672 eleitores das Ilhas Malvinas se prefeririam ser ingleses ou argentinos??? (Lembrei o programa Silvio Santos: a pessoa de dentro de uma cabine, sem escutar a pergunta, tinha que decidir com um simples “sim” ou “não” se sairia de lá proprietária de uma casa de três quartos, ou de um maravilhoso tênis montreal antimicrobiel).

No caso do Referendo de Falklands, porém, as pessoas não corriam o risco da aposta. Sabiam exatamente o que estava sendo perguntado. E 98,8% dos eleitores responderam desejar que as ilhas permanecessem como território do Reino Unido. (Os 1,2%, - suponho - havia esquecido os óculos em casa no dia da votação).

Outra vez na história a Argentina deu a cara à tapa para a Inglaterra. Eu era criança quando estourou a Guerra das Malvinas, mas lembro de ter me interessado em entender por que uma ilhazinha tão sem graça mobilizava submarinos nucleares e mísseis exocet. Foi simples analogia: coloque um monte de chocolate (o equivalente a petróleo, no reino infantil) dentro da casinha do cachorro e ela será o local mais disputado pelas crianças da cidade. A coisa da posição estratégica militar foi um pouco mais complexa: você prefere atirar de bodoque de cima de uma árvore ou lá do outro lado do mundo? Enfim, para tudo há uma comparação palatável. O fato é que bastaram algumas bombas para Margareth Thatcher mostrar os dentes no contra-ataque e deixar claro seu poder de barganha. E não se falou mais nisso.

Agora o povo do arquipélago, trinta anos depois, confirma nas urnas a acachapante supremacia da popularidade inglesa. For God’s sake, tem coisa que não se pergunta.

Só que o conclave no Vaticano vem com mais uma agora: “É Don Odilo Scherer ou Angelo Scola?” Afemaria!...

08/03/2013

Paradoxxo




PARADO XX O

Que mulher somos?
Um dia certo no mês de março
e um ano todo para cuidar dos nossos olhos
filhos, afetos, trabalhos e desmaios
ao longo do calendário

Que mulher nos resta de brinde
ou contingência
ou garantia
ou ganância

- A que abraça o mundo ou a de mãos atadas?

malabarista, puritana, ativista
submissa, madame, mundana
cansada
erudita, cibernética, espiritual,
simples fêmea no cio

O que aceitamos, afinal,
- whisky sem gelo ou chá de jasmim?

Que mulher somos?!?

Vivemos paradoxo insano:

um animal de ponta cabeça
que lambe feridas
e revira lixo

com DNA maiúsculo de bicho
e um H pra lá de humano.

 

24/02/2013

GRE-NAL DE OLHARES




Aposto que poucos torcedores masculinos perceberam o clássico jogo de camisas no gramado, porque homem veste a camiseta do seu time e durante os noventa minutos só olha para pernas, no caso, as que estão com a bola.

Mas garanto que as mulheres captaram de cara as vaidades: a camisa de Vanderlei Luxemburgo, mais uma dessas moderninhas, de textura diferenciada, que ele costuma comprar na descolada Spirito Santo. E, do lado adversário, é claro, a camisa de Dunga, ultimamente mais discreta do que o habitual, tecido trabalhado branco no branco, mas de colarinho duro, sempre discutível adequação para a beira de um campo. O primeiro vestia calça jeans slim fit, cuidadosamente esfarrapada. O segundo, desde o pito da CBF, largou de mão o gênero “Agostinho Fashion Week” e adotou estilo discreto e cores neutras, também para as calças de alfaiataria. Tudo muito bem observado pelas mulheres. E... onde estava o olhar dos homens nessa hora?

Eis a questão: homens e mulheres já frequentam gramados de futebol em igualdade de condições; daqui a pouco talvez também em igual quantidade, mas o olhar, ah, o olhar será sempre desigual.

Homens e mulheres têm visões diferentes sobre a vida, não seria outra a realidade do futebol, seja no estádio ou na telinha. É uma questão de foco.

Enquanto as mulheres olham consternadas para o garoto atingido pelo rojão, lançando-lhe um incontido desejo maternal de salvação, os homens miram seu olhar fulminante para o outro lado: buscam, na multidão da torcida, de onde veio o disparo, captam o agressor, declaram guerra aos gladiadores. Homem é luta, caça, extermínio. Mulher é proteção, amparo, é quem cuida das feridas.

Masculino e feminino serão diferentes ainda que no mesmo time.

12/02/2013

Escolta inflexível no Carnaval




Eu gostaria que fossem mulatas, mas são muletas, minhas companheiras de carnaval. Azuis, de tão retintas. Duras, frias, disciplinadas. Elas não sambam - tão mais pra soldados ingleses do que pra rainhas de bateria. Sua missão é garantir meu equilíbrio, minha segurança, sem muito papo. Decidiram que assistir aos desfiles de carnaval pela TV, sentada no sofá, já estaria bastante arriscado pra mim. E vetaram a caipirinha, olha só. Pelo menos me deixaram dormir tarde.



Assistimos na telinha a todos os desfiles. Elas ali, de sentinela.

Pode ser impressão minha, mas achei que o carnaval está mais hightech do que nunca. Painéis gigantes de led, chãos de estrela, vestidos que piscam-piscam-e-trocam-de-cor, edifícios-alegóricos. Só faltava a bateria não ser mais acústica. Tudo tão pós-moderno... Se o príncipe Charles volta ao Rio aposto que perde seu rebolado.



Sem poder sair do lugar, vi até os desfiles gaúchos. Já desfilei no sambódromo de Porto Alegre (e também na Sapucaí), então pude perceber a evolução do carnaval do sul este ano: os grandes animais dos carros alegóricos até já abrem e fecham a boca. As baianas são cariocas. E teve uma escola que recrutou dezenas de romanos para desfilar numa ala. Investimento pesado. Tava lindo, tchê. Agora é só regularizar essa imigração toda.



Não me impressionei com as fantasias, invejei foi os bumbuns. Esses também estão mais tecnológicos: zero celulite, zero caimento (dez, nota dez, na evolução) - deve ser coisa de novos hormônios lançados por aí. Fiquei pensando civicamente: todas nós, brasileiras, deveríamos ter direito, na cesta básica, a um bumbum de passista. Vou escrever pra Dilma.


Sabe o que? Percebi um quesito que não acompanhou a evolução dos tempos: a encenação do mestre-sala com a porta-bandeira. Cortejo é coisa de antigamente, nas minha contas. Contudo, não é que aquele homem segue ali rodopiando a moça, rodopiando, flertando-a incansavelmente na avenida, e ela se fazendo? Sim, vira a cara para o galanteador como se estivesse nos anos trinta com um leque na mão. Ora, para ser mais atual, a Porta-Bandeira deveria se atirar no colo do Mestre antes mesmo de começar o desfile, lá na concentração. Vou escrever pro Carlinhos de Jesus.


06/02/2013

DELIRANDO...

Quem diz que o cão é o melhor amigo do Homem é porque não conheceu a morfina.

Essa sim merece fidelidade, cafuné, lugar eterno ao pé da cama. Morfina até combina com nome de gato fêmea, não? Eu batizaria Tramadol um belo cão de companhia. Ora, não há melhor amigo do que um analgésico na hora certa.

Vivi alguns (gloriosos) dias de dependência química e concluí. Sabe quando respirar dói, comer dói, pensar dói, sabe quando a dor tira a vontade de viver? Não foi o que passei. Nem de longe. Mas foi a reflexão que me ocorreu nesses dias em que pude rapidamente aliviar a dor de um pós-operatório com simples doses bem prescritas.

E nesta hora eu pensava em quanta gente agoniza em situações inimagináveis de dor, sofrimento desesperador. Queimados, mutilados, transplantados, fraturados, pacientes terminais, padecimento que nem a fé consegue aliviar. Aí vem a Morfina e permite aquele momento -ainda que provisório- de uaaaahhhh... descanso. Diria até de dignidade existencial. Um oásis. Uma trégua na desgraça.

É quase feitiço: a pessoa dá um pulinho ali no céu, deita confortavelmente sobre um colchão de nuvem e respira aliviada, suspira, fala bobagem, sorri sem explicação, enfim, um providencial delírio. Dá até coragem de descer e viver de novo.

Pois então. A morfina tem o poder de transformar, de inverter radicalmente as expectativas. Renova a identidade perdida, resgata a esperança. É um salvamento heroico do ser. Num passe de mágica o sujeito pula do pesadelo para o sono onírico. Quer milagre maior?

Não é a toa que a papoula era tida pelos gregos como “a planta da alegria”- o Homem já conhecia seus efeitos hipnóticos e euforizantes há mais de seis mil anos.

Não estou incentivando o uso de drogas alucinógenas, óbvio. No meu caso, até virei chacota de hospital: dizem que na maca eu encomendava repetidamente aos cirurgiões um capricho tal que resultasse “a perna do Messi por dentro e a da Gisele Bundchen por fora”, o melhor dos dois mundos. A piada foi que entenderam o contrário, e acabei com três cortes em vez dos dois combinados. E daqui a oito meses descobrirei que estou jogando bola como uma modelo. Que delírio!

Mas nesta semana em que andei rodeada de amigos químicos, fiquei feliz ao constatar mais uma vez que na vida todo desconforto tem sua compensação.

15/12/2012

Providências Antes do Fim do Mundo

RUMO AO PARAÍSO HD 40307

Extra, extra! Acabam de descobrir um novo planeta habitável fora do sistema solar. Fica a 42 anos-luz de distância da Terra. Bem dizer um piscar de olhos, do jeito que a coisa anda. Não teve aquele maluco que há pouco quebrou a barreira do som num salto de paraquedas? É fazer o mesmo de baixo para cima, ora.

Bom, deixemos as questões operacionais para depois. Só sei que vou de mudança e levarei os meus. Cansei dessa coisa de faltar água no planeta água. E dos apagões. Esses dias cortaram a luz por 3 horas no meu bairro. Pela segunda vez na semana. E o combustível? Petrobrás diz que não vai faltar, mas a fila do posto desmente (antes mesmo que a Veja publique sua matéria com denúncias bombásticas). Tá tudo fotografado. E contra fotos não há argumentos.

Pois nesse novo planeta aí, parece que encontraremos a fartura de recursos naturais que só Adão e Eva experimentaram na terra virgem. Vai ter banana sem pragas, água potável e carne de vaca para todos, até para os indianos, dizem. O vento será brisa, nada de furacão. E o sol não sairá de férias durante o Carnaval. Essas sim, são verdadeiras condições adequadas à vida.

Depois, por aqui ainda tem o tal terrorismo do fim do mundo. Lá não, teremos um mundinho zero bala. Sem Maias rogando pragas para as civilizações futuras.

Eu vou. Tentei marcar passagem com milhas, mas o sistema não aceitou. É só ter paciência de esperar um tantinho mais. Daqui a pouco a Tam lança vôo direto e era isso.

Bom, se você está muito bem obrigado onde está, que fique. Não vou forçar a barra. Aliás, já nem está mais aqui quem falou. Tô saindo para o evento de pré-venda dos primeiros lotes com vista para a Terra. 

See you! 

10/12/2012

De joelhos



DE JOELHOS



Eu que sempre fui péssima em física na escola e pouco me relacionava com a lógica precisa da matemática, é claro que passei de costas pelos teoremas de Arquimedes, o estudioso da alavanca e outras noções que revolucionaram o mundo.

- "Dê-me um ponto de apoio e moverei a Terra", disse Arquimedes sobre o poder da alavanca.



Na verdade, ele disse “δῶς μοι πᾶ στῶ καὶ τὰν γᾶν κινάσω”, em palavras originais. Mas nem ouvi. Matemática pra mim é grego.



E sabe o que? Essa sabedoria não me fez falta no colégio, nem no vestibular, na profissão, e muuuuito menos para ser feliz na vida. Sou favorável à redução do currículo escolar (em pelo menos um terço do conteúdo) - simplesmente porque o aprofundamento técnico é dispensável para nosso desenvolvimento básico e ainda toma lugar de formação mais importante: primeiros socorros, mecânica automotiva, psicologia, finanças pessoais, empreendedorismo, política, economia, oratória, diplomacia e outras matérias que deveriam ser bem aprendidas muito antes da fórmula de Baskhara.



Que Pitágoras não me ouça, mas até prendas domésticas é mais útil para a sobrevivência do homem comum!



Só que esses dias, no joguinho de futebol semanal com as meninas, odiei desconhecer que Fp x BP = Fr x Br. Subestimei o poder da alavanca e deixei o pé na dividida da bola. O conhecimento matemático me fez falta. Ah, como fez. Não calculei as consequências e criei alavanca onde não devia (é preciso esclarecer que a zagueira tinha o dobro do meu tamanho e era combativa). Fui catapultada. No ar já senti o estalo, o ploc dos ligamentos se rompendo, a patela subindo pra coxa. E a dor. Um chute na alma.



O que era para ser o último jogo do mês, provavelmente terá sido o último da vida - minha carreira no futebol já tava na categoria pós-sênior e eu seguia em campo jurando que sou Roger Milla pra driblar o tempo.



E agora ainda tem a coisa das muletas, depois cirurgia, fisioterapia e por aí vai. Buscarei jogos sem contato físico, tipo par ou impar. E vou estudar matemática nas férias. Cursinho básico de fórmulas e equações para sobrevivência. 





08/12/2012

Assalto à Mão Amada

08/12 : Dia da Família - Meu desejo de que seja sempre possível frear os ponteiros acelerados da vida para vivenciar as imperdíveis cenas de família. Elas são fugazes mas, se bem sentidas, ficam.  












ASSALTO À MÃO AMADA
(Nov/2007)

Fui assaltada nesta manhã
quando tirava o carro da garagem, distraída.


Atacou-me impiedosa
com máscara de mergulho, metralhadora de luz
uma espada na outra mão
e eu,
sem saída.

Pedia-me um dinheiro, um anel, um beijo
em troca da minha vida

Com armas de plástico de pequeno porte
e cara de mau
sem um dedo livre para me segurar
paralisou de imediato
minha rota apressada
e eu,
- daria meu reino por este dia de sorte.

Negociação honrosa e sem morte
tomou vinte e cinco segundos de prosa
cinqüenta centavos pela cena
mais um afago na testa
e passe livre para seguir em paz

Com os bolsos cheios
e os olhos também
com a alma abastada
e o cofre também
dei uma ré feliz
e segui estrada sabendo
que alegria é feita de quase nada

Eu vi
emocionada
ali
me abanando em frente à praça
com cara de sono e sorriso de atriz
minha riqueza de graça

Para minha filha Lau, a meliante.
Terraville, novembro de 2007.

25/11/2012

Transfusão

25/11 - Dia Nacional do Doador de Sangue



TRANSFUSÃO

Quem falou
que seu sangue azul
não se misturaria com o meu

Quem apostou
que vampiro desejaria mais o seu mel
do que eu

Quem duvidou
que a sua nobreza
não faria um lindo par com minha necessidade
nesta noite comovente de incertezas?

20/11/2012

Consciência Para Todos

No Dia Nacional da Consciência Negra


CONSCIÊNCIA PARA TODOS


- O que você acha do mês da consciência negra?
- Ridículo! - ...e aquela visível cara de impaciência.
- Então como vamos nos livrar do preconceito racial?
Parando de falar sobre isso! Eu te chamo Mike Wallace e você me chama de Morgan Freeman.

Assim este genial ator encerrou a tentativa de polêmica criada pelo entrevistador da CBS News. Você quer uma semana para a consciência judaica? Você precisa disso? - seguiu ele, desconcertando o entrevistador. Confinar toda nossa história em um mês? A história dos negros é a história da América! De mestre, Morgan, de mestre. veja em http://www.youtube.com/watch?v=tNEoIo3XMws

Morgan Freeman é um ser livre, como seu sobrenome induz: free man. Mas o jeito simples e natural de lidar com um assunto pra lá de batido e que ainda causa desconfortos, foi uma atuação de primeira. Tão encantadora quanto o personagem Carter em Antes de Partir.

A raça negra é forte, bonita, criativa, saudável, inteligente. Cotas para negros em universidade é tão descabido quanto seria criar cotas para brancos em gravadoras de rap, ou na liga de basquete da NBA.  Características físicas de origem racial não criam diferentes hierarquias de seres. Há necessidade de proteger os iguais?As diferenças estão naturalmente em qualquer pessoa, seus talentos, vocações, aptidões.
Segmentar por raça é preconceito. É jogar pessoas contra pessoas. E olhe lá, preconceito nada tem a ver com os nomes que usamos na identificação informal: para mim “negão” é tão válido quanto “japa”, “magrão”, “loirosa” e “galego”. Ou esses termos não fazem parte do seu vernáculo? Preconceito é como você realmente trata as diferentes pessoas.

Temo que o dia da consciência negra não crie homenagem, mas atrapalhação. Conceder ao tema um dia no calendário é como dizer: este é seu espaço, não saia daí.

A objetividade de Morgan fala alto porque avança na noção de civilidade. História é uma coisa, preconceito é outra. É claro que a escravidão dos negros plantou uma marca histórica reprovável. Mas aqui estamos para superar marcas agindo diariamente contra qualquer espécie de hostilidade. Perseguição existe por todo lado. Desde o bulling nas escolas até a xenofobia a estrangeiros. Toda forma de hostilidade é perversa, e a luta pela tolerância é a verdadeira bandeira, uma bandeira de múltiplas cores, origens e credos.

Eu não vou dizer que sonho com a paz mundial, soaria discurso de miss. Mas acho sim que humanidade é a causa que merece mobilização e atitude todo dia, todo mês, todo passo que se dá.

Vamos, Morgan, lutemos juntos pelo mês a mês da consciência humana.

16/11/2012

Orquestrando

Na Semana da Música

ORQUESTRANDO

Se essa banda fosse minha
eu regeria os solfejos
convidaria os arcanjos
estalaria um beijo
abriria a cortina pro sol
daria ouvidos ao realejo
tocaria em si mesmo
ou mi bemol

Libertaria da rígida regência o desejo
rebolaria displicente
o corpinho de violão
caminharia de ré bem colcheia
amaria no solo
tremeria o grave do chão
sairia do tom
desafinaria sem dó

Após um bom refrão
deitaria no teu colo
com cara de viola
pediria uma cerveja
puxando conversa de cavaquinho
ficaria lá, do teu ladinho
em concerto infinito
sem cordas nem vogais

Se essa banda fosse minha eu perderia a voz
- viveria em suspiros sustenidos
por acordes musicais

08/11/2012

Four more years para nosotros!
















Ufa, Presidente!.. Achei que perderíamos o telefone vermelho. Eu não viveria sem o telefone vermelho. Tire-me o rim, mas deixe o telefone. É um ícone, um fetiche, um must have. E veja que tem até fio! Preste atenção: é pelo telefone vermelho que lhe passaremos os comandos - nós, latinos e mulheres que o reelegemos. Você recebeu sua segunda chance, Presidente. Certo, você realmente tinha amigos na Florida e em Ohio, mais do que imaginava. Mas foi o apoio das minorias que chancelou sua prevalência. Portanto, agora nos ouça, nos olhe, nos cuide, for God sake. Você disse que o melhor ainda está por vir e que estamos juntos nessa. Oba, oba, in Obama we trust!

Desculpe os pés na mesa. É, estive novamente ocupando sua sala enquanto você andava lá checando as urnas. Senti-me à vontade. Nada demais - relaxei, tomei café aguadinho e dei uns telefonemas. Todos vermelhos. Aproxime-se, a sala é sua de novo, ou ainda. Sim, sim, a cadeira também, já desocupo. Chama isto de invasão? Bem, até pode ser, no rigor da palavra. Mas foi pacífica e branda, você entende bem esses termos. Nos seus parâmetros eu diria que está mais para a da Somália do que para a do Iraque, if you know what I mean. Take it easy, nem me ocorreram as explosões do Japão, faz tanto tempo...

Só entrei, dei uns toques femininos na sala e pronto, já tô de saída. Olha, deixei uma listinha de sugestões aqui, sobre a mesa. Sem pressa, quando tiver tempo dá uma olhadinha. Ah, e tomei a liberdade de trocar a foto da Michelle com as crianças no porta-retrato, não leve a mal. A de tailleurzinho estava muito protocolar, ficou melhor essa aí no morro do Vidigal, com a madrinha junto, em que aparece você ao fundo fazendo embaixadinha. É mais latina, mais natural, mais “famílião”, entende?

Hein? Could you repeat, please? Ah, sim, de novidade o índice Dow Jones despencou, assim como o preço do petróleo, mas o Big Mac está saindo por dois dólares e trinta e três cents em Washington. Se eu fosse um argentino na década de 80, eu diria “dame dos”. Mas sou brasileira e estamos em outros tempos, moeda forte e tal, então... give me five, yeah!

Já vou indo, mister President. Não esqueça a listinha, ali, no canto da mesa.

O melhor ainda está por vir. Adios! Hasta la vista! Suerte, amigo!

E atenda sempre o telefone.

01/11/2012

Mandinga

No Dia de Todos os Santos



MANDINGA


Depois de maldizer os santos
racionalizar os fatos
desfazer quebrantos
recolher as flores, apagar as velas
demolir o altar e o querubim

Segurei com firmeza meu próprio pulso
sem batimento
e com a fé que dispunha
rompi em prantos e sem testemunhas
a fitinha do senhor do bom-fim

A partir de agora, não creio nem em mim

26/10/2012

Convites

Queridos blogamigos,

Os acontecimentros literários desta semana me deixaram muito feliz! 

Primeiro, a premiação no Concurso Mário Quintana (1o lugar em Crônica e menção honrosa em Conto) recebida diretamente das mãos do Secretário de Cultura do Estado, Luiz Antônio de Assis Brasil, deferência tão legal quanto o prêmio. Os textos estarão na Coletânia que será lançada amanhã na 58a Feira do Livro de Porto Alegre.

Depois, um programa de rádio em Santa Catarina que fará a leitura de poemas do livro "Par e Ímpar" através da interpretação de Marcos Antonio Terras, um incansável e entusiasmado promotor da poesia no Estado de Santa Catarina. Há cinco anos Marcos faz a leitura de poesia à mesa de bar, no café do Memorial Attilio Fontana, em Concórdia. Este ano também conquistou espaço na rádio UnC FM (rádio educativa), onde todos os sábados declama poemas intercalados por músicas que dialogam com os textos. Pura magia! Para este sábado, para minha honra, Marcos escolheu o Par e Impar, o meu bebê! Tenho um amor tão grande pelo Par e Ímpar que adoro quando aparece alguém assim disposto a embalá-lo com carinho. Fiquei muito feliz mesmo. E admirada com o Projeto Palavra's, do Marcos, que faz circular a arte com tanta doçura.

Assim, compartilho os convites para este sábado, 27/10:

1) às 13h, na rádio UnC FM Concordia. O programa pode ser ouvido pela www.uncfm.com.br ou sintonizando 106.

2) às 18h, na 58a Feira do Livro de POA (Memorial do Rio Grande do Sul): lançamento da coletânea "O Fio da Palavra", que reune textos de oficineiros do Sintrajufe e os trabalhos premiados no Concurso Mário Quintana 2012. Haverá distribuição gratuita de exemplares e os autores estarão autografando.

Um grande abraço literário a todos.

23/10/2012

Carta de adeus à Romney



Anunciaram um cenário “intimista”, fui checar.

Nada de meia-luz. Puseram vocês meio de frente, meio de lado, um ângulo estranho, talvez a medida calculada para uma piscadinha de olho incapaz de ser captada pelas câmeras. No mais, um cenário frio de CBS News.

Você, aquele galã de sempre, Romney. Se eu tivesse um presidente, queria nele essa aparência, uma postura sólida que fica bem em museu de cera depois. Você é bom, bem treinado. Prometeu olhar para América Latina, só olhar. Os olhos verdes e a gravata estavam impecáveis. Mas você não vai muito além disso, governador. Falta credibilidade. Seu deboche ultrapassa umas duas jardas o limite do razoável. O jogo é ser convincente, não engraçado. E depois ainda tem aquele episódio da mentira flagrada no último debate. Pegou mal.

Meu candidato é Obama, sempre foi. Nem sei bem por quê. Gosto do jeito que ele cria as filhas e abraça a mulher. Gosto de como Michelle se emociona em seus discursos e as meninas se orgulham. Gosto de saber que todos arrumam sua própria cama a cada manhã na casa branca. Um país não é uma grande família a ser educada, amparada?

Gosto do olhar de tigre de Obama – talvez o instinto de alcatéia é o que o faz ver a China como aliada. Apreciei o fim que deu em Bin Laden e o prêmio Nobel da Paz um pouco antes. Depois, sei lá, Obama morou em Bali, cursou direito e é canhoto. Gosto do seu estado de bote permanente, sempre a postos para saltar sobre a presa. Não digo devorar, mas morder, mastigar, machucar, com toda cautela e elegância de um lorde à mesa. Obama disse que você mente, Romney, que é um ser ultrapassado e que ainda por cima grita. Você nem sentiu o golpe. Eu sou Obama desde pequeninha. Além disso, ele tem uma esposa forte e linda. Minha mãe gostaria de ter os braços gordos e firmes de Michelle. Luta por isso na academia com a mesma garra que eu luto para ter o abdome definido do Zé Roberto. Bem, devem ser razões suficientes para apoiar um candidato que não presidirá meu país. Go for it, Obama!

20/10/2012

Mulher Pistache

MULHER PISTACHE


Mulher argentina tem fama de durona com os homens. Dizem que para descolar um papo com uma portenha não basta ter voz. Nem um par de olhos verdes, um reforçado conjunto de bíceps, ser ex-BBB. Dizem que para seduzir uma argentina não funciona nem mesmo pilotar um jaguar ou outro bicho exótico, o que vale é a boa lábia. E não adianta falar espanhol perfeito e mais cinco línguas. Tem que falar a língua dela.

Significa dizer que este flerte exige calma e persistência. Antes de tudo, deve-se convencer a muchacha de que não há interesse em apenas uma noite. Ela conhece a safadeza masculina, só dará confiança aos pouquinhos. Migalha por migalha. Sabe que quanto mais rápido se entregar, mais rápido termina o jogo. E a gringa não curte games fugazes, ela prefere gangorra a escorregador - se é que o conquistador lembra das brincadeiras de praça nessa hora.

Pergunto-me por que diabos, conhecendo a pedreira toda, os homens ainda investem tanto na conquista da mulher argentina. Correm o risco da viagem perdida. Gastam umas férias só no flerte, comentando com entusiasmo patético: “Fabrizia está por um triz, mais cinco dias e ela me deixará pagar sua cerveja” – e a cara é de quem está quase fincando a bandeira no solo da lua.

Elas são difíceis, deslizantes, desafiadoras, as argentinas. É claro que sempre tem louco buscando o topo do Himalaia, mas em tempos hedônicos, em que o prazer perfeito está facilmente ao alcance da mão, por que será que a conquista difícil ainda é um esporte internacionalmente apreciado?

Encontrei a resposta quando enfrentava um pote de pistaches. Tem que abrir semente por semente com paciência de monge. Quebra-se a unha, machuca-se o dente, e você, salivando, não desiste. Com a dedicação de um hippie montando colar artesanal, você luta até a morte contra a casquinha dura, até que finalmente liberta a pequena iguaria e a enfia na boca com aquele sabor de floresta virgem, que dura... um segundo. E aí, valeu o sacrifício?

Sua cara deveria ser o emblema da saciedade: um copo d’água depois de atravessar um deserto, uma cama de mola ao final da maratona. Ora, depois de comer um pistache você deveria fechar os olhos e encenar um grande suspiro do tipo propaganda de bala de menta!!! Mas que nada. Suando em bicas você não pensa em outra coisa que não no próximo pistache, e no próximo e no próximo, porque aquela minúscula semente verde vira um desejo incontrolável, com a força do incrível hulk.

Você quer a sede do deserto até não aguentar mais. Não há trégua no prazer da conquista. Então você entra de novo no ringue com uma pequena (mas poderosa) casca dura na mão. Parece instinto de sobrevivência. Ou de luta: leão faminto não come cachorro morto em beira de estrada, segundo o ditado.

Então, fica a dica às mulheres: vistam sua casca-dura e sejam mais argentinas neste verão. Não entreguem a honra de bandeja. Só o desafio tem sabor irresistível, meninas. Sejam mais pistache e menos amendoim com sal.

1o lugar categoria Crônica -
Concurso Literário Mário Quintana 2012

18/10/2012

no dia do médico


      DIAGNÓSTICO

Você constatou sem pressa
que pus a blusa do avesso
sentei torta na maca
borrei a maquiagem
fiz cara de morta

Você alertou devidamente
que era um olhar clínico
que observava cínico meus passos
enquanto tomava nota

Você examinou meu pé doído
investigou meu rastro
mediu meu juízo
e foi preciso ao atestar
que eu pisara em caminho proibido

12/10/2012

No Dia das Crianças



CARTILHA

Se filhos são ilhas de existência autônoma
cercada por sonhos de outros
que os aprisionam,
que pena.

Não deveriam sentir-se isolados
acuados em terras estranhas

Tomara possam escapulir pelo ar
com as artimanhas que escondem no armário

Porque é deles a escolha
de pintar o cenário, o cabelo, o muro, o mundo
cruzar mar, caatingas, cerrados,
e o futuro

Não os quero ilhados.

Tomara saiba eu recolher minhas águas
e deixar-lhes fluido o espaço
Tomara possam ouvir minhas preces
mas seguir sua sorte

E enquanto crescem
que eu consiga impor-lhes apenas
como rotina obrigatória, o abraço
como disciplina, o amor
como láurea, a paz

e como tema de casa diário
o exercício ordinário da sua própria história.




3º LUGAR
XVI Concurso nacional da Academia Caxiense de Letras 2011

04/10/2012

Dia do Cão


THE END

Soltei em ti os meus cachorros
encontraram teus gatos mansos
foram ver televisão

Cansaram da cena de cinema
do papel clichezento de inimigo mortal
e alguém sempre morrendo no final