28/06/2015

BONITOS POR NATUREZA

“Moro num país tropical,
abençoado por Deus
e bonito por natureza,
 mas que beleza.
E em fevereiro tem carnaval”

    

Sem sofrimento, pessoal. A gente já sabia. Para ganhar qualquer Copa hoje em dia o futebol brasileiro precisaria ter menos 'graça' e mais 'raça'. Raça é qualidade dos bravos, atitude de vencedor. E vai dizer: nosso povo é a coisa mais linda e mais cheia de... que?

Vencer exige a postura combativa dos sobreviventes. Dos que lutam para seguir de pé custe o que custar - como naquela fábula da mosca que cai no copo de leite e passa a noite toda batendo as asas até que amanhece sobre a nata dura. Vivinha da silva. Se a mosca vestisse a camiseta brasileira talvez não se desse ao trabalho, afinal, era apenas a sua vida.

Não esqueço a imagem de Álvaro Pereira da seleção uruguaia no jogo contra a Inglaterra na Copa de 2014: o cara desmaiou subitamente ao ser atingido por uma joelhada. Quando recobrou a consciência, viu que estava sendo substituído e, num rompante indignado, o charrua levantou trôpego e bradou de dedo em riste e exigiu sua permanência em campo. Negou-se a sair porque aquilo não era um jogo, era sua própria vida!

Observemos: o que faz Neymar quando perde um gol feito? Passa a mão na mecha loira e sorri com uma carinha fofa de deboche. A pátria maternal se compadece e acolhe a falha como um colo de vó - e vamos para o próximo lance, meu filho. Agora, me diga: você já viu o atacante Rooney sorrir? Nem no aniversário de um ano do filho, pode apostar. Concentração total. Como um guerreiro celta. Guerra é seu esporte.

Tenho uma tese empírica: o Brasil é um país mimado, o que se reflete no jogo bonitinho mas ordinário da nossa seleção – essa garotada que acha que dá pra colher sem plantar, vencer sem suar, driblar bonito e golear sem a chatice de marcar o adversário. Podemos até fabricar talentos, mas no fundo o Brasil canarinho gosta mesmo é do cocoricó. Como o galo, que não põe ovo, mas canta.

Eis o fundamento da tese: somos um país mimado pelas circunstâncias. Em nossa história não morremos de guerra, nem de frio, tremor de terra, tsunami, ou bomba atômica. Sobraria morrer de fome, não fosse o peixe em fartura no imenso litoral, a bolsa família do Brasil Carinhoso, a banana caindo do pé direto para a mão, a água limpa do côco. Por aqui, quem faz força é a gravidade. A gente faz é bossa, dança, graça e tudo mais que termine em som de pizza.

Observemos outros campos: Brasil é campeão mundial em quantidade de cesariana. Parto normal exige esforço e ainda dói. Melhor é alguém chegar na hora marcada e abrir a porta com bisturi, não é mesmo? E confesse aí: entre assistir debate político e um show do Zeca Pagodinho, fazemos o que? Entre protestar nas ruas por uma reforma tributária ou seguir o trio elétrico saltitando? Entre ir à assembleia de condomínio ou ver a novela das oito, hein?

Nós, brasileiros, combinamos mais com farra do que com garra. Rimamos mais com rede do que com sede. A gente gargalha mais do que batalha. Por outro lado, todos sabem que o brasileiro é alegre, afetivo, solidário, criativo, brincalhão, bom amigo. Não fiquemos decepcionados, são outros atributos e também têm seu valor.

A questão é preparar nossas expectativas compreendendo a história. Vai ver não nascemos para ser líderes, e sim para ser livres. Somos bonitos por natureza, não por esforço próprio. Temos graça, não raça, ora bolas. E entre ‘graça’ e ‘raça’, a raça é a que dá títulos.

Graça dá a festa. E aqui entre nós: a festa mais divertida que você já viu!!..

20/06/2015

JOGO DE VAIDADES


Tudo começou com Messi. Não. A rigor, acho que começou com a onda dos cabelos estilizados, brincos de brilhante e tatuagens. Foi quando o espelho ficou mais importante que a bola. Foi quando a nécessaire Armani de cremes e perfumes substituiu o sacolão Adidas de camisetas suadas. Foi aí. É. Foi.

Mas estou falando dessa última semana, então, nesse caso a jogada começou com Messi. Ele havia apresentado sua lista de exigências ao luxuoso hotel em que a seleção argentina se hospedaria no início da Copa América. Suas excentricidades incluíam três jacuzis, uma cesta de basquete no quarto e uma piscina a exatos 28ºC. Entre outros mimos. Bem verdade que não ordenou toalhas brancas sob seus pés a cada passo dado, como Whitney Houston. O rapaz é simples. Ocorre que acabou se apegando à cama do hotel Serena Suites e declarou que dali não sairia até o final da Copa, não importando se as partidas se realizassem a 600 km dali, como a de hoje, em Viña de Mar, ou mais. Vire-se com a logística, delegação. 

Depois foi a vez de Vidal, craque da seleção chilena que deu show de poder ao destruir sua Ferrari e mais três carros, embriagado, após noitada num cassino. Negou sua culpa num primeiro momento porque caso se reconhecesse como um ser humano pecador, o Chile seria imediatamente decapitado do mapa. Logo depois parece que tomou um chá morninho de humildade e entendeu que ele e a nação eram pessoas diferentes, cada qual com sua história e identidade própria. Pediu até desculpas ao povo. Agora vire-se com os danos dos carros, seguradora.


Então, Neymar. Depois de passar todo o jogo contra a Colômbia em TPM, estressadinho com cada falha em campo (e foram muitas), ao ouvir o apito final chutou seu descontrole para todos os lados e ainda aguardou o juiz para sussurrar-lhe arrogância ao pé do ouvido: “quer ficar famoso às minhas custas, seu fdp”. Um espetáculo de virilidade. Parece que até sapateou de chuteiras depois. Boa, Neymar - valeu 100 pontos na carteira e quatro jogos de suspensão. Agora vire-se com o recurso, CBF. 

E paramos por aqui porque a semana já está no fim. 

Saudade do tempo em que jogador de futebol era um atleta, pelo qual torcíamos. Ele lutava por nossos gritos e aplausos, não pelos holofotes da mídia internacional. Era atraído pelo gol e não por seu próprio umbigo. O ritual era simples: ajeita a chuteira, sorri para a bola, cospe no chão. Agora é diferente: ajeita o cabelo, sorri para as câmeras, cospe na nossa cara. E vire-se com a inversão, torcedor.


04/06/2015

O peso do amor e o colapso dos rituais


Bruno Juillard bateu de punho cerrado sobre mesa e acabou com a brincadeira: “é o fim dos cadeados!”, ordenou. “Estragam a estética da ponte, são estruturalmente ruins e podem causar acidentes”, foram as razões definitivas.
Então seguirá arrancando a fórceps (leia-se, a guindaste) as quarenta e cinco toneladas de juras de amor da Pont des Arts de Paris. 

Sabemos que o Amor não precisa disso. Nem de emblema, nem de amarras (muito menos). O amor, aliás, é leve e movediço. Antes flana sobre o Sena, em vez de ficar ali aprisionado em metal pesado.

Se eu fosse escolher alguma imagem como símbolo, seria a do Amor tomando um café com crème brûlée numa esquina qualquer de Paris, com um galouise sem filtro bem tragado depois – a fumaça espargindo aquele delicioso aroma de romance sobre o rio. Assim etéreo. Assim sentimental. E olha que eu nem fumo.

O fato é que o Ser Humano (esse sim) necessita de símbolos concretos. Vale tudo: figa, crucifixo, fitinha do senhor do bom fim. Quem não?  E somos adeptos a rituais. Toc, toc, toc. Ajoelhar e benzer-se. Pular sete ondas. Quem nunca?

Daí, Monsieur Juillard, que a questão não é assim tão só matemática. Tão só engenharia civil, entende? Precisamos materializar nossos sonhos e desejos através de metáforas criativas.

E não dá pra negar que as possibilidades estão reduzindo nesse mundo tão politicamente correto. Olha só: não se pode mais entalhar as árvores com o clássico coração, flecha e iniciais dentro (o Ipê, a Imbuia e o Jacarandá estão ambientalmente protegidos). Tatuar no peito o nome do ser amado fica bem difícil de apagar depois (... e que o amor é efêmero, bem, até os apaixonados desconfiam). Já aquela clássica oferenda da vela, pimenta, óleo de pitanga, arruda, sal grosso, mel, carvão e rosas vermelhas é meio trabalhosa - e se incluir galinha morta, então, a lei pega.

Assim, o artifício de selar as juras de amor com um cadeado sobre a ponte e jogar a chave no rio, parecia bem interessante – “não é o que os peixinhos dizem”, alguém alegará. E Juillard ainda acrescentará o pesado argumento da carga.

Está difícil ser romântico e correto ao mesmo tempo.

Assim, antes que sejamos consumidos pelo vazio metafísico nesse mundo já quase sem Deus, deixo aqui minha ideia de “cadeados reaproveitáveis”. Usei a estratégia numa ponte em Salzburg. E nem foi por consciência ecológica. Muito menos por cálculo estrutural. Foi por economia. Era ou um Cadeado em euros, ou uma Torta Sacher na schwarzstrasse. Preferi a opção mais calórica. Mas não abri mão da fezinha, deus-me-livre-e-guarde: escolhi um cadeado meio gasto entre os tantos já presos no gradil, e tasquei nossos nomes com caneta permanente por cima.

Evitei peso extra na ponte e metal no rio, veja que inspiração.


Se vai dar certo como mandinga, não sei. Mas está lá. Até que outro espertinho risque por cima. Ou que algum juillard austríaco, com frieza burocrática, ordene arrancar.

12/05/2015

DOMINÓ DA MEMÓRIA

 
Pode me chamar de emotiva, exagerada, nostálgica, patética, histérica. Sou tudo isso e um pouco mais, muito prazer. O fato é que sofro com as perdas. E esse ano começou pesado. Está desabando, peça por peça, o dominó da minha memória. Primeiro foi o Jornal “O Sul”. Há anos eu estava apegada aquele toque, ao movimento matinal de folhear, ao cheiro de página, entende? Pergunte-me se fui buscar a versão digital. Nunca mais!
Depois foi o Plazinha - um hotel que hospedou o glamour da cidade desde 1958 e que, para minha geração, significou o programa descolado-chic da feijoada aos sábados no centro. Pois ontem o Plazinha também bateu as portas na cara da nossa memória.
Agora veio essa: dia 18 de maio teremos que nos despedir da Rádio Ipanema. Já foi duro aceitar, em 1999, o abrupto calar da voz de Kátia Suman, que comandou meu ritmo musical nos anos oitenta e noventa. Agora vão desligar a rádio toda?!? Diz a notícia que depois de 32 anos de história, a Ipanema estará “migrando para o mundo digital” - que deve ser aquele lugar onde colocam as coisas obsoletas de castigo. Ali, entre a vitrola e o pinguim de geladeira. O quê? O pinguim já se mandou para a Antártida?
Ouça a próxima: estive na Vivi Vídeo (onde vou há 29 anos locar “fita tape”, depois dvd, então blu-ray, e onde achei que logo pediria por um archival disc) e encontrei a placa: “Vamos fechar! Compre seu filme por apenas R$12,00”. Se até a Vivi Video está indo dali, o que me garante que de repente não sumirá o Moinho de Vento do Parcão?? (que, aliás, já foi hipódromo e estádio de futebol...)
Deem explicações e tempo para absorvermos as mudanças radicais. Deem assistência, consolo, colo. Não se pode derrubar as peças assim, sem um colchão emocional. São vínculos fortes.
Estou arrasada. Sem chão. Sem pernas. Sem fé no futuro.
Prepare-se. Parece que até o clássico Gre-nal está ameaçado: andam juntando as torcidas, um troço misto, e daqui a pouco tudo ficará lilás.  
E, dizem, vai faltar água no Rio Guaíba.  
Só resta anunciarem que o aeroporto Salgado Filho fechará e seremos tele transportados para um lugar melhor. Eu fico! - inarredável, amarrada, agarrada na última pedra de memória.       

10/05/2015

CONTRA O PODER DO BISTURI

Para refletirmos nesse dia das mães:
 
Foto de Tatiana Druck. Não que eu tivesse torcendo por alguma complicação, benzadeus! Mas confesso: também me surpreendi com a rapidez do parto da princesinha da Kate (“Kate”..., sorry, a celebridade é uma merda). Pois então. A duquesa deu um pulinho ali no hospital, pariu, e dez horas depois já estava em casa. Assim. Como quem vai tomar chá com as amigas, ou comprar meias no shopping.

Achei o máximo. Na verdade, invejei. Eu que tive duas cesarianas e que sonhava em caminhar e sorrir após o parto (em vez de incorporar aquela cara de “tudo bem, vai passar” para visitas, e agonizar as dores e limitações de uma cirurgia abdominal), me senti a gata borralheira esfregando o chão, enquanto ela, a diva parideira, deu a luz rapidinho e ainda saiu da maternidade de braços dados com um príncipe! Assim surreal.

Foi aí que esse tema voltou a me ocupar a cabeça.

Temos que rever nossos conceitos com urgência. Nós, as plebeias brasileiras sem títulos da coroa. A realeza é que sabe viver glamourosamente como bicho. Consegue parir fácil como qualquer animal faz. E fica logo pronta pra cuidar, amamentar e curtir seu filhote.

É claro que nem sempre é possível optar pelo parto normal. A OMS informa que 15% dos casos exigem intervenção. Eu mesma tive meu primeiro filho de urgência e prematuro (já minha segunda cesárea foi eletiva, e até hoje me culpo por não ter ido contra as “indicações” – quase sempre discutíveis - que recebi).

Sabemos que na maioria das vezes cesariana é uma escolha. Uma opção conveniente aos médicos, que organizam sua agenda e poupam tempo. Conveniente aos hospitais, que otimizam leitos. Conveniente às mães, que evitam a temida dor e o risco de sair esbaforida (sabe-se lá quando) com a sacola na mão e a bolsa rompida. Não são razões suficientemente nobres, vamos convir. Mas são as que nos movem.

Revisei as estatísticas: o Brasil segue o campeão mundial de cesarianas. Um quadro crescente e chocante. Aqui, 56% dos bebês nascem pelo poder do bisturi (84%, na rede privada de saúde!). A média mundial é de apenas 18%.

Vamos questionar essa cultura do avesso, desfazer mitos, exigir a informação que está nas mãos de poucos. Refletir e posicionar-nos com firmeza. Encorajarmo-nos. Vamos tratar com mais normalidade o que é por definição normal: a procriação.

Estamos falando de intervenção desnecessária, com todos os riscos inerentes: anestesia, infecção, hemorragia, cicatrização, pós-cirúrgico. Há 10 vezes mais mortes maternas. Poucos sabem, mas numa cesariana cortam-se sete (sete!) camadas de tecido até chegar ao bebê (para quem se interessar: pele, gordura, aponeurose, músculo, peritônio parietal, peritônio visceral e útero). Mexa-se, com um buraco desses.

Por fim, é cientificamente comprovado (e não há polêmica sobre isso) que o parto normal é mais saudável para a criança (orgânica e emocionalmente falando): elimina líquidos do pulmão, produz corticoide, favorece a amamentação. Já deveria ser o suficiente para decidir, não?

Assim, você que está em tempo de optar: pense nisso. Que tal ser normal como uma duquesa?
 

07/05/2015

OS LIMITES DA LOUCURA

OS LIMITES DA LOUCURA

Tenho uma amiga que não pode ver fiozinho solto (esses fiapos de costura que levantam em blusas, tecidos em geral). A doida puxa seu isqueiro e - plic! - queima instantaneamente o problema antes que a vítima possa dizer “não, eu adoro esse fiapinho” ou “não, por favor, tenho medo de fogo”, ou seja lá qual argumento de defesa for. Ela é rápida no gatilho. E ainda fica com aquele sorriso heroico de canto de boca, do tipo “resolvi-seu-problema” – e a fumacinha subindo por trás da cena. Comovente assim.

Até aí tudo bem, quem não tem seus TOCs? Eu seria hipócrita se achasse normal, por exemplo, meu hábito nas refeições: só termino um prato com as garfadas equilibradamente distribuídas. Significa dizer que não engulo o arroz sem a respectiva cobertura de feijão, junto do pedacinho de carne e uma batatinha do mesmo tamanho, tudo em igual proporção - vá ser louca assim lá no refeitório do hospício.

Mas também é sabido que a loucura tem seu glamour. Rende música, filme, arte – ‘De perto ninguém é normal’, Caetano diagnosticou com precisão poética. Uma loucurinha de estimação pode até ser divertida, se for tranquila a forma como a pessoa lida com seu lado estranho. Eis então o primeiro limite da loucura: o convívio pacífico do maluco com sua maluquice.

Uma tia, por exemplo, para em frente à gôndola do supermercado e fica lá girando os potes, arrumando-os por cor e tamanho. Vai deixando tudo perfeitinho até que se dá conta dos trinta e sete minutos que perdeu nisso e se irrita com a própria insensatez. Então, num rompante de lucidez embaralha todos os potes e sai caminhando aliviada, com cara de paisagem, já puxando sua listinha de compras do bolso. Só falta olhar para cima e assobiar. Essa passa, né?

Já minha enteada tem o hábito de usar delineador nos olhos dezenas de vezes por dia (até antes de entrar no banho!). Quando confrontada com seu exagero, defende-se louca-da-vida: - “Me deixem com essa loucura que é a única que eu tenho!”

Todo mundo quer uma insanidade pra chamar de sua. Respeitemos. Desde que não cause sofrimento, que fique cada louco com a sua mania.

Voltemos à amiga queimadora de fiapos. O problema é que nesse caso ela pode machucar as pessoas com seu espontâneo gesto. E se a manobra dá errado? Se for um tecido altamente inflamável e – shlaf! - o sujeito pega fogo como se estivesse coberto de combustível? Há um risco envolvido. Eis então o outro limite necessário à loucura: a incolumidade alheia.


Por essas e outras, o Ministério da Razoabilidade adverte: usufrua sua loucura com moderação e guarde-a em lugar apropriado. Vale a mesma ponderação usada para pets de estimação: pode levar a loucura para passear, brincar, expor, se divertir. Mas não pode soltá-la por aí para atacar quem passa perto. Tem loucura que mata. Toc, toc, toc.


1o lugar no 10o Concurso Mário Quintana - 
publicado na Antologia Lavra Palavra, POA: Sintrajufe, 2014.



16/04/2015

É TUDO QUESTÃO DE PASSO




         Diz aí, você também parou para ver. Se não parou; espiou, gostaria de, ou ainda vai. C’mon, ninguém no mundo passa alheio ao desfile de despedida da Pernalonga mais bem paga do planeta. É como o último jogo do Maradona - por acaso você fechou os olhos? Aham.

Não, ninguém de nós ontem estava ligado nas tendências da coleção verão 2016. Queríamos admirar, contemplar, entender o fenômeno. Não é só um par de belas pernas compridas com um sorrisão de 128 dentes lá no alto. Ela é mais, é maior. Ela é über.

           Eu vi, aplaudi e até chorei junto. Com a Gisele Bündchen, ontem, no São Paulo Fashion Week, e com Maradona, em 1997. Tudo igual. Esses casos que nos fazem pensar como é a vida. Um dia a guria de Horizontina aparece de vestidinho vermelho da Colcci e um gato na mão. Era 1997, ela tava começando. De repente veste um biquíni estampado com Che Guevara e cria o frisson. Já era 2002 e ela consagrada como número um do reino fashion. Lá pelas tantas Gisele está por aí embolsando 150 milhões a cada ano de aparições e o Guinness a registra como modelo mais rica da história.

Vai dizer que nesse percurso ficou mais bonita? Criou uma pernada especial de passarela que ninguém mais conseguiria reproduzir? É o cabelo mais brilhoso? Falta mulher estonteante no universo da moda? Necas! É a vida. Uns emplacam, outros batem na trave, a maioria não chega nem perto. É a união da vocação com as oportunidades. Da sorte com o empenho pessoal. Da atitude com uma conjunção astral inexplicável.

Num determinado momento, os talentos ficam pululando em estado latente. Tudo se define com um passo. Se Gisele tivesse sido chamada para a seleção gaúcha de vôlei (então sua paixão) pouco antes de ser convidada para fazer um book, hein? Às vezes uma sutil passada antes ou depois, para a direita ou para a esquerda, para mais ou para menos, é que estabelece o destino.

          Ontem a top máster entrou na passarela do SPFW ovacionada como um Mick Jagger universal. Para quem ainda não viu, já digo: ela estava linda e surreal como sua conta bancária. Chegou rindo e reluzente, com aquele ar de garota que mora na praia. E saiu chorando humanamente como todos nós.

Parar também é emocionante e difícil. Aliás, saber a hora certa de 'dar o último passo' é um passo pra lá de crucial.  

19/03/2015

RECOMEÇANDO

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- Vamos, Bicho. Acorde, já é março.

Esticou os braços e deu um longo e selvagem bocejo.

- Março?
- É.
- De que ano?
- 2015.

Arregalou os olhos, saltou abruptamente e sacudiu a cabeça com indignação:

- E posso saber por que me deixaram dormir tanto?!?
- Bem.. achei que estavas hibernando. Resolvi respeitar o processo.
- Hibernando? Atravessamos dois verões desde a última postagem e tu acredita mesmo que eu tava hibernando? Diz aí que mané de bicho teria um metabolismo desses?
- Bom, ...ãnh.. eu...
- Isso mesmo, você que se assuma! Não me chamou antes porque não queria o trabalho de me cuidar, não foi?
- Hum... um pouco.
- Pois então reconheça sua fraqueza. Sua incompetência. Sua preguiça.
- Ok, Bicho. Tive alguns imprevistos, percalços, uma bagunça momentânea na vida, entende? Não, não entende, você não entenderia uma vida humana.
- Sou Bicho mas não sou burro.
- Tá certo. Você tem razão. Então apenas entenda. Não me julgue. Prometo que não vou culpá-lo por dormir tanto. Foi minha a responsabilidade não sacudi-lo antes - está bem assim? Afinal, eu tenho a força e..
- Ôp, ôp, ôp.. pó pará!
- O que?
- Primeiro de tudo: temos dúvidas sobre quem tem a força. Lembra?
- Ok, vou deixar a questão em aberto só porque você está acordando de mau humor. 
- É um bom começo de conversa.
- E qual outra concessão ainda te devo, Bicho?
- Ah não, não, sem essa de vitimização. Somos Bichos ou somos insetos?
- Bichos. Digo, você é um Bicho.
- Então tá. Chega de mimimi. Já estamos em março e há muito o que fazer. Pega a vassoura, vamos dar um jeito nisso aqui.
- Falou, Bicho.

17/04/2013

CHACOALHANDO NA WEB



Harlem Shake é o vídeo viral do momento. O “meme” da internet, febre mundial, xodó do youtube, pauta de sociólogos antenados, dor de cabeça de diretores de universidades e... motivo de seis demissões no Poder Judiciário de Novo Hamburgo nesta semana.

Para você que, como eu, chega atrasado nos “assuntos da hora”, explico como funciona a novidade: uma galera se junta rapidamente para filmar um videoclipe inusitado, do tipo bizarro – a cena começa com uma única criatura dançando hip hop num cenário onde todas as outras pessoas estão absolutamente concentradas nos seus afazeres (imagine um escritório, uma sala de aula, uma repartição pública). Aquele ser dançante parece um alienígena fora do contexto, aparentemente sem ser percebido pelos demais. De repente, ao comando de “Do the harlem shake!”, a cena muda radicalmente e todos naquele local aparecem fantasiados, chacoalhando o corpo freneticamente, de preferência sobre as mesas, ou pendurados no lustre, dentro dos armários, jogados no chão. E este é o enredo do vídeo. The end.
- De tão patético, acaba ficando engraçado.

Até aí tudo bem. Acontece que a moda pegou forte e a galera anda filmando isso em cenários “politicamente incorretos” (tipo quartel militar, gabinete do fórum, ...), o que tem rendido punições severas.

Confesso que só soube da coisa porque minha filha sofreu suspensão coletiva na escola, quando a turma filmou o troço na sala de aula e publicou na internet. Para poder me posicionar, fui tomar pé do assunto (sempre desconfio que por trás de movimentos subversivos há sempre uma ânsia revolucionária de paz).

É fácil hastearmos o discurso moralista da transgressão juvenil, do desrespeito ao ofício, aquele papo do “trabalho que é bom, nada”, e blá blá blá. Mas também podemos ver com outros olhos: os trinta segundos de vídeo tomam menos tempo que um cigarrinho no meio do expediente. E ainda rende uma descontração saudável em grupo que pode resultar num melhor ambiente de trabalho. Cumplicidade entrosa.

Ok, também sou contra excessos (vale para tudo: sal, álcool, sol). Não gosto de dança obscena nem no Harlem Shake nem no Funk do Morro. E é claro que dá para poupar filmagens no saguão do vaticano, né? Mas se a brincadeira é feita com equilíbrio, sem agressões, pode ser interessantemente criativa - tem Harlem Shake filmado até em baixo d’água – haja produção. Meu filho conta que nos EUA seus professores da high school fizeram um Harlem Shake em homenagem aos formandos. Ninguém foi demitido; aplaudiram de pé.

Há sociólogos relacionando a moda ao “urban playground movement” - grupos em busca de descontração nos locais públicos, em protesto à inércia e ao sedentarismo. Alguns referem caráter político e outros apenas lembram a natural vocação humana para manifestações populares provocativas.

Acho que o poder da mobilização social é algo que deve ser respeitado sempre. E, claro, compreendido no âmbito de suas ferramentas tecnológicas. Tivessem os mencheviques um twitter para angariar mais apoio e a história seria outra. Por outro lado, em maio de 68 os grevistas franceses sacudiram os valores da “velha sociedade” sem internet nem nada. Real shake.

Certo que o tal Harlem Shake é mais um destes impressionantes fenômenos da internet, que faz um fato banal virar febre planetária em poucas horas, reverberando através de milhões de acessos.

Mas – ôpa! – eis que ainda há pessoas por trás dos cliques e das ações. Então questionemos por que um determinado fato repercute tanto. Há algo aí que toca no ponto G do psiquê humano, pode crer. Estejamos atentos para observar não só as ferramentas, mas seus pilotos: o que os empolga? O que os une? O que os mobiliza?

Os instrumentos mudaram, mas vai ver a busca humana continua a mesma. Vai ver.

06/04/2013

Socorrooooo!

Se existe receita pra tirar chiclete de tecido, curar dor de guampa, espantar mau olhado, ... ora, deveria haver uma solução simples para os incômodos spams – penso eu. Só que não consigo exterminá-los da minha vida. Pior que formiga no verão.


Depois de muito bufar, fui à luta: passei a adicionar os e-mails invasores um por um à lista de remetentes bloqueados, achando que assim controlaria a praga "no muque", mas a multiplicação em massa é tão mais rápida, que logo desisti – me senti o próprio Jaspion duelando contra o monstro que cria três novas cabeças a cada espadada, socorro.


Pois agora acabo de ler o anúncio do CGI.br: o Brasil saiu da lista dos dez países que mais enviam spam por e-mail no mundo! \o/  A notícia ainda não chegou na realidade da minha caixa de entrada, onde seguem brotando e-mails com oferta relâmpago de cinta modeladora, remédio para calvície, caneta espiã, viagra, colchão científico a preço de custo, dicas infalíveis para o bem estar, vassoura elétrica e maravilhosas importações xingui lingui.


Diz o jornal que a coisa vai melhorar a partir do bloqueio da tal Porta 25, um dos canais por onde saem as mensagens sem autenticação do servidor. Por mim poderiam trancafiar todas as portas, vedar, blindar contra fogo, aplicar veneno nas aberturas - vá que spams passem pelas frestas.


Não basta o tempo que perdemos checando o que realmente importa, também temos que ser leões de chácara do nosso próprio território, faxinar o lixo virtual antes que se alastre e tome conta da máquina, do mundo, isso não é o fim?


Sei (pelas propagandas que recebo via spam) que o envio de 50.000 e-mails representa para o anunciante menos de 1 centavo por cliente atingido, bem mais barato e rápido do que qualquer panfleto. Com a diferença que o internauta não pode recusá-lo, como faz o passante.


Pelamordedeus! Eu juro que não estou precisando limpar meu nome no serasa nem parar de fumar em dez lições. Não quero comprar boneca little children, pneus para motos, duas cafeterias pelo preço arrasador de R$599,80, obrigada, não desejo falar com o chefe do Zezinho, nem recorrer de multas de trânsito, e, definitivamente: não quero aumentar o tamanho do meu pênis em até 30%!!!


Eu só queria um spamnador.


Engraçado é que não entra propaganda de spamnador.



12/03/2013

Yes ou Si ?

Tem pergunta que não se faz. Tipo o clássico dilema “ou ela, ou eu” - qualquer pessoa com o mínimo de cautela evita a franca encruzilhada. Vá que.

Pois não é que neste domingo um referendo público indagou aos 1.672 eleitores das Ilhas Malvinas se prefeririam ser ingleses ou argentinos??? (Lembrei o programa Silvio Santos: a pessoa de dentro de uma cabine, sem escutar a pergunta, tinha que decidir com um simples “sim” ou “não” se sairia de lá proprietária de uma casa de três quartos, ou de um maravilhoso tênis montreal antimicrobiel).

No caso do Referendo de Falklands, porém, as pessoas não corriam o risco da aposta. Sabiam exatamente o que estava sendo perguntado. E 98,8% dos eleitores responderam desejar que as ilhas permanecessem como território do Reino Unido. (Os 1,2%, - suponho - havia esquecido os óculos em casa no dia da votação).

Outra vez na história a Argentina deu a cara à tapa para a Inglaterra. Eu era criança quando estourou a Guerra das Malvinas, mas lembro de ter me interessado em entender por que uma ilhazinha tão sem graça mobilizava submarinos nucleares e mísseis exocet. Foi simples analogia: coloque um monte de chocolate (o equivalente a petróleo, no reino infantil) dentro da casinha do cachorro e ela será o local mais disputado pelas crianças da cidade. A coisa da posição estratégica militar foi um pouco mais complexa: você prefere atirar de bodoque de cima de uma árvore ou lá do outro lado do mundo? Enfim, para tudo há uma comparação palatável. O fato é que bastaram algumas bombas para Margareth Thatcher mostrar os dentes no contra-ataque e deixar claro seu poder de barganha. E não se falou mais nisso.

Agora o povo do arquipélago, trinta anos depois, confirma nas urnas a acachapante supremacia da popularidade inglesa. For God’s sake, tem coisa que não se pergunta.

Só que o conclave no Vaticano vem com mais uma agora: “É Don Odilo Scherer ou Angelo Scola?” Afemaria!...

08/03/2013

Paradoxxo




PARADO XX O

Que mulher somos?
Um dia certo no mês de março
e um ano todo para cuidar dos nossos olhos
filhos, afetos, trabalhos e desmaios
ao longo do calendário

Que mulher nos resta de brinde
ou contingência
ou garantia
ou ganância

- A que abraça o mundo ou a de mãos atadas?

malabarista, puritana, ativista
submissa, madame, mundana
cansada
erudita, cibernética, espiritual,
simples fêmea no cio

O que aceitamos, afinal,
- whisky sem gelo ou chá de jasmim?

Que mulher somos?!?

Vivemos paradoxo insano:

um animal de ponta cabeça
que lambe feridas
e revira lixo

com DNA maiúsculo de bicho
e um H pra lá de humano.

 

24/02/2013

GRE-NAL DE OLHARES




Aposto que poucos torcedores masculinos perceberam o clássico jogo de camisas no gramado, porque homem veste a camiseta do seu time e durante os noventa minutos só olha para pernas, no caso, as que estão com a bola.

Mas garanto que as mulheres captaram de cara as vaidades: a camisa de Vanderlei Luxemburgo, mais uma dessas moderninhas, de textura diferenciada, que ele costuma comprar na descolada Spirito Santo. E, do lado adversário, é claro, a camisa de Dunga, ultimamente mais discreta do que o habitual, tecido trabalhado branco no branco, mas de colarinho duro, sempre discutível adequação para a beira de um campo. O primeiro vestia calça jeans slim fit, cuidadosamente esfarrapada. O segundo, desde o pito da CBF, largou de mão o gênero “Agostinho Fashion Week” e adotou estilo discreto e cores neutras, também para as calças de alfaiataria. Tudo muito bem observado pelas mulheres. E... onde estava o olhar dos homens nessa hora?

Eis a questão: homens e mulheres já frequentam gramados de futebol em igualdade de condições; daqui a pouco talvez também em igual quantidade, mas o olhar, ah, o olhar será sempre desigual.

Homens e mulheres têm visões diferentes sobre a vida, não seria outra a realidade do futebol, seja no estádio ou na telinha. É uma questão de foco.

Enquanto as mulheres olham consternadas para o garoto atingido pelo rojão, lançando-lhe um incontido desejo maternal de salvação, os homens miram seu olhar fulminante para o outro lado: buscam, na multidão da torcida, de onde veio o disparo, captam o agressor, declaram guerra aos gladiadores. Homem é luta, caça, extermínio. Mulher é proteção, amparo, é quem cuida das feridas.

Masculino e feminino serão diferentes ainda que no mesmo time.

12/02/2013

Escolta inflexível no Carnaval




Eu gostaria que fossem mulatas, mas são muletas, minhas companheiras de carnaval. Azuis, de tão retintas. Duras, frias, disciplinadas. Elas não sambam - tão mais pra soldados ingleses do que pra rainhas de bateria. Sua missão é garantir meu equilíbrio, minha segurança, sem muito papo. Decidiram que assistir aos desfiles de carnaval pela TV, sentada no sofá, já estaria bastante arriscado pra mim. E vetaram a caipirinha, olha só. Pelo menos me deixaram dormir tarde.



Assistimos na telinha a todos os desfiles. Elas ali, de sentinela.

Pode ser impressão minha, mas achei que o carnaval está mais hightech do que nunca. Painéis gigantes de led, chãos de estrela, vestidos que piscam-piscam-e-trocam-de-cor, edifícios-alegóricos. Só faltava a bateria não ser mais acústica. Tudo tão pós-moderno... Se o príncipe Charles volta ao Rio aposto que perde seu rebolado.



Sem poder sair do lugar, vi até os desfiles gaúchos. Já desfilei no sambódromo de Porto Alegre (e também na Sapucaí), então pude perceber a evolução do carnaval do sul este ano: os grandes animais dos carros alegóricos até já abrem e fecham a boca. As baianas são cariocas. E teve uma escola que recrutou dezenas de romanos para desfilar numa ala. Investimento pesado. Tava lindo, tchê. Agora é só regularizar essa imigração toda.



Não me impressionei com as fantasias, invejei foi os bumbuns. Esses também estão mais tecnológicos: zero celulite, zero caimento (dez, nota dez, na evolução) - deve ser coisa de novos hormônios lançados por aí. Fiquei pensando civicamente: todas nós, brasileiras, deveríamos ter direito, na cesta básica, a um bumbum de passista. Vou escrever pra Dilma.


Sabe o que? Percebi um quesito que não acompanhou a evolução dos tempos: a encenação do mestre-sala com a porta-bandeira. Cortejo é coisa de antigamente, nas minha contas. Contudo, não é que aquele homem segue ali rodopiando a moça, rodopiando, flertando-a incansavelmente na avenida, e ela se fazendo? Sim, vira a cara para o galanteador como se estivesse nos anos trinta com um leque na mão. Ora, para ser mais atual, a Porta-Bandeira deveria se atirar no colo do Mestre antes mesmo de começar o desfile, lá na concentração. Vou escrever pro Carlinhos de Jesus.


06/02/2013

DELIRANDO...

Quem diz que o cão é o melhor amigo do Homem é porque não conheceu a morfina.

Essa sim merece fidelidade, cafuné, lugar eterno ao pé da cama. Morfina até combina com nome de gato fêmea, não? Eu batizaria Tramadol um belo cão de companhia. Ora, não há melhor amigo do que um analgésico na hora certa.

Vivi alguns (gloriosos) dias de dependência química e concluí. Sabe quando respirar dói, comer dói, pensar dói, sabe quando a dor tira a vontade de viver? Não foi o que passei. Nem de longe. Mas foi a reflexão que me ocorreu nesses dias em que pude rapidamente aliviar a dor de um pós-operatório com simples doses bem prescritas.

E nesta hora eu pensava em quanta gente agoniza em situações inimagináveis de dor, sofrimento desesperador. Queimados, mutilados, transplantados, fraturados, pacientes terminais, padecimento que nem a fé consegue aliviar. Aí vem a Morfina e permite aquele momento -ainda que provisório- de uaaaahhhh... descanso. Diria até de dignidade existencial. Um oásis. Uma trégua na desgraça.

É quase feitiço: a pessoa dá um pulinho ali no céu, deita confortavelmente sobre um colchão de nuvem e respira aliviada, suspira, fala bobagem, sorri sem explicação, enfim, um providencial delírio. Dá até coragem de descer e viver de novo.

Pois então. A morfina tem o poder de transformar, de inverter radicalmente as expectativas. Renova a identidade perdida, resgata a esperança. É um salvamento heroico do ser. Num passe de mágica o sujeito pula do pesadelo para o sono onírico. Quer milagre maior?

Não é a toa que a papoula era tida pelos gregos como “a planta da alegria”- o Homem já conhecia seus efeitos hipnóticos e euforizantes há mais de seis mil anos.

Não estou incentivando o uso de drogas alucinógenas, óbvio. No meu caso, até virei chacota de hospital: dizem que na maca eu encomendava repetidamente aos cirurgiões um capricho tal que resultasse “a perna do Messi por dentro e a da Gisele Bundchen por fora”, o melhor dos dois mundos. A piada foi que entenderam o contrário, e acabei com três cortes em vez dos dois combinados. E daqui a oito meses descobrirei que estou jogando bola como uma modelo. Que delírio!

Mas nesta semana em que andei rodeada de amigos químicos, fiquei feliz ao constatar mais uma vez que na vida todo desconforto tem sua compensação.

15/12/2012

Providências Antes do Fim do Mundo

RUMO AO PARAÍSO HD 40307

Extra, extra! Acabam de descobrir um novo planeta habitável fora do sistema solar. Fica a 42 anos-luz de distância da Terra. Bem dizer um piscar de olhos, do jeito que a coisa anda. Não teve aquele maluco que há pouco quebrou a barreira do som num salto de paraquedas? É fazer o mesmo de baixo para cima, ora.

Bom, deixemos as questões operacionais para depois. Só sei que vou de mudança e levarei os meus. Cansei dessa coisa de faltar água no planeta água. E dos apagões. Esses dias cortaram a luz por 3 horas no meu bairro. Pela segunda vez na semana. E o combustível? Petrobrás diz que não vai faltar, mas a fila do posto desmente (antes mesmo que a Veja publique sua matéria com denúncias bombásticas). Tá tudo fotografado. E contra fotos não há argumentos.

Pois nesse novo planeta aí, parece que encontraremos a fartura de recursos naturais que só Adão e Eva experimentaram na terra virgem. Vai ter banana sem pragas, água potável e carne de vaca para todos, até para os indianos, dizem. O vento será brisa, nada de furacão. E o sol não sairá de férias durante o Carnaval. Essas sim, são verdadeiras condições adequadas à vida.

Depois, por aqui ainda tem o tal terrorismo do fim do mundo. Lá não, teremos um mundinho zero bala. Sem Maias rogando pragas para as civilizações futuras.

Eu vou. Tentei marcar passagem com milhas, mas o sistema não aceitou. É só ter paciência de esperar um tantinho mais. Daqui a pouco a Tam lança vôo direto e era isso.

Bom, se você está muito bem obrigado onde está, que fique. Não vou forçar a barra. Aliás, já nem está mais aqui quem falou. Tô saindo para o evento de pré-venda dos primeiros lotes com vista para a Terra. 

See you! 

10/12/2012

De joelhos



DE JOELHOS



Eu que sempre fui péssima em física na escola e pouco me relacionava com a lógica precisa da matemática, é claro que passei de costas pelos teoremas de Arquimedes, o estudioso da alavanca e outras noções que revolucionaram o mundo.

- "Dê-me um ponto de apoio e moverei a Terra", disse Arquimedes sobre o poder da alavanca.



Na verdade, ele disse “δῶς μοι πᾶ στῶ καὶ τὰν γᾶν κινάσω”, em palavras originais. Mas nem ouvi. Matemática pra mim é grego.



E sabe o que? Essa sabedoria não me fez falta no colégio, nem no vestibular, na profissão, e muuuuito menos para ser feliz na vida. Sou favorável à redução do currículo escolar (em pelo menos um terço do conteúdo) - simplesmente porque o aprofundamento técnico é dispensável para nosso desenvolvimento básico e ainda toma lugar de formação mais importante: primeiros socorros, mecânica automotiva, psicologia, finanças pessoais, empreendedorismo, política, economia, oratória, diplomacia e outras matérias que deveriam ser bem aprendidas muito antes da fórmula de Baskhara.



Que Pitágoras não me ouça, mas até prendas domésticas é mais útil para a sobrevivência do homem comum!



Só que esses dias, no joguinho de futebol semanal com as meninas, odiei desconhecer que Fp x BP = Fr x Br. Subestimei o poder da alavanca e deixei o pé na dividida da bola. O conhecimento matemático me fez falta. Ah, como fez. Não calculei as consequências e criei alavanca onde não devia (é preciso esclarecer que a zagueira tinha o dobro do meu tamanho e era combativa). Fui catapultada. No ar já senti o estalo, o ploc dos ligamentos se rompendo, a patela subindo pra coxa. E a dor. Um chute na alma.



O que era para ser o último jogo do mês, provavelmente terá sido o último da vida - minha carreira no futebol já tava na categoria pós-sênior e eu seguia em campo jurando que sou Roger Milla pra driblar o tempo.



E agora ainda tem a coisa das muletas, depois cirurgia, fisioterapia e por aí vai. Buscarei jogos sem contato físico, tipo par ou impar. E vou estudar matemática nas férias. Cursinho básico de fórmulas e equações para sobrevivência. 





08/12/2012

Assalto à Mão Amada

08/12 : Dia da Família - Meu desejo de que seja sempre possível frear os ponteiros acelerados da vida para vivenciar as imperdíveis cenas de família. Elas são fugazes mas, se bem sentidas, ficam.  












ASSALTO À MÃO AMADA
(Nov/2007)

Fui assaltada nesta manhã
quando tirava o carro da garagem, distraída.


Atacou-me impiedosa
com máscara de mergulho, metralhadora de luz
uma espada na outra mão
e eu,
sem saída.

Pedia-me um dinheiro, um anel, um beijo
em troca da minha vida

Com armas de plástico de pequeno porte
e cara de mau
sem um dedo livre para me segurar
paralisou de imediato
minha rota apressada
e eu,
- daria meu reino por este dia de sorte.

Negociação honrosa e sem morte
tomou vinte e cinco segundos de prosa
cinqüenta centavos pela cena
mais um afago na testa
e passe livre para seguir em paz

Com os bolsos cheios
e os olhos também
com a alma abastada
e o cofre também
dei uma ré feliz
e segui estrada sabendo
que alegria é feita de quase nada

Eu vi
emocionada
ali
me abanando em frente à praça
com cara de sono e sorriso de atriz
minha riqueza de graça

Para minha filha Lau, a meliante.
Terraville, novembro de 2007.

25/11/2012

Transfusão

25/11 - Dia Nacional do Doador de Sangue



TRANSFUSÃO

Quem falou
que seu sangue azul
não se misturaria com o meu

Quem apostou
que vampiro desejaria mais o seu mel
do que eu

Quem duvidou
que a sua nobreza
não faria um lindo par com minha necessidade
nesta noite comovente de incertezas?