09/09/2015

QUANTO VOCÊ DARIA?



O marido irrompe meu escritório no meio da tarde de hoje e abre correndo a tela do computador ao lado, como se estivesse sendo transmitida ao vivo a assinatura de um tratado de paz no oriente médio. 

Cutuca-me para assistir, ansioso. Espio de canto. Um sujeito grisalho e sorridente fala em inglês mostrando – ao que parece - umas gracinhas tecnológicas. “Humpf”, penso. Não dou bola e num segundo volto meu foco para o trabalho novamente. “Homens”, concluo.

Ele inconformado com minha indiferença, brada em tom alarmista: “sabe quantas pessoas no mundo dariam tudo para presenciar este evento agora?!?” Resolvi espichar o olho com um pouco mais de paciência. Era a apresentação mundial do novo iPad da Apple. Fino como folha de papel. Rápido como a luz. Grande como a tela de cinema. Leve como a pena. Utilitário como o bombril.  

A cada novidade anunciada, o grisalho sorridente (que a essas alturas já havia ganho o nome de Tim Cook e o cargo de Presidente executivo da Apple), é interrompido pela plateia com gritos e aplausos entusiasmados, como se fosse Martin Luther King naquele discurso profético pelos direitos civis em Washington. “I have a dream..”    

Ok, se você (como eu) é desses que está atento a outras coisas e não se derrete pelas novidades tecnológicas, saiba mais: o novo iPadPro é 80% mais rápido do que os PCs portáteis. Sua tela tem 12,9 polegadas de tamanho contra as 9,7 da versão anterior. 10 horas de bateria. Quatro autofalantes. O tablet interage com uma caneta stylus que permite desenhar, escrever e pintar sobre a tela, com diferentes espessuras de traço. E dá pra rabiscar e usar os dedos simultaneamente.

Ahn? Nem se abalou? Então ouça isso e veja se resiste: por US$ 799 a US$ 1079 você leva a gracinha pra casa. Com mais US$ 99 terá também a caneta mágica. Vendas a partir de novembro. Tem gente entrando na fila agora com uma cadeirinha de pescador dobrável e um saco de dormir.

Não suspirou ainda? Prepare-se, então: o novo tablet vem com teclado virtual e físico e o modelo 128 GB tem conexão celular 4G!!! Aham! Agora sim, resolveu quase todos os problemas, não?  

Por fim, tchan tchan tchan: Tim Cook firmou acordo para integrar o pacote Office ao novo iPadPro! Já pensou? Word, Excel, Photoshop, Powerpoint – a produtividade máxima da Microsoft agora na Apple! Então? Nem um tratado pela paz no oriente médio parece tão incrível.

Nada? (Nem um óóóh...? )

Você sabe quantas pessoas dariam tudo por um troço desses?!?!? 



05/09/2015

NANA, NENÊ


Sshhhh, pronto, pronto, pronto. Agora vamos deixar o pequeno Aylan Kurdi dormir o sono dos anjos, num bercinho mais digno do que a areia dura e fria do Mediterrâneo.

Vamos guardá-lo na memória como símbolo angelical de uma absurda necessidade. Vamos. Precisamos niná-lo com bons pensamentos e sonhar com dias melhores. Porque outros refugiados virão.

Vamos torcer por mais corvetas como a da Marinha brasileira, que ontem resgatou 220 imigrantes perto do mar da Sicília, meio que por acaso. (Ou nada é por acaso?).

Vamos rezar por uma Europa (afinal tão experiente com o desespero da guerra) abrindo suas portas para os vizinhos.

Vamos festejar o plano do multimilionário egípcio Naguib Sawiris de comprar ilhas da Grécia e Itália para acomodar milhares de outras crianças que com suas famílias construirão uma nova vida em segurança e paz.

Vamos, imaginemos como Lennon: “It isn't hard to do /Nothing to kill or die for /And no religion too/ Imagine all the people /Living life in peace”.

Celebremos nas palavras da jovem poeta Carine Morais a crença de que todo anjo tem sua missão: “(...) Nadar e morrer na praia / era antes um dilema /passou a ter um rosto/ ou muitas faces refugiadas/ seus sapatos ainda nos pés/ calçavam a aparência/ de um pequeno anjo, / silenciado, / para que o mundo inteiro/ o pudesse ouvir”.

Vamos alimentar a fé de que aquele corpinho indefeso plantado no limite entre a areia e o mar era um verdadeiro divisor de águas entre a consciência e a solução.

Sshhhh... Agora vamos fazer silêncio que o menino Aylan precisa descansar.

Vá, anjinho colorido, siga agora com nossa mudez dolorida e com a necessária esperança de que nada, nada, nada acontece em vão.


25/08/2015

DEEZ NUTS FOR PREZ



Eu que há anos carrego foto de Barak Obama na carteira, andava meio perdida por não ter para quem torcer na próxima eleição presidencial dos EUA. Donald Trump com seus chiliques e extravagâncias não me representa (tenho a sensação de que sua primeira medida será um muro-de-berlim na fronteira com o México).

Hillary Clinton até teria meu apoio, mas ela cortou o cabelo igual ao meu - não gosto de pessoas invejosas.

Então trato de ir me conformando com mais uma perda de referência política, me despedindo daquela imagem gloriosa de Obama - o sorriso lindo e confiante nos pronunciamentos, a elegância nas declarações, a firmeza nas medidas necessárias. Gosto de gente assim: assertiva, bonita, humana. Gosto que ele manda as filhas arrumar suas próprias camas. Sou Obama de Dakota ao Alabama. O fim do seu mandato vai me trazendo uma tristeza melancólica como o último raio de sol num entardecer de inverno.

Eis então que meu vácuo existencial-eleitoral ganhou um novo alento: “Deez Nuts” entrou na corrida para a presidência! 

Aos 15 anos, o garoto Brady Olson mostra a coragem, a criatividade e o ímpeto de um grande líder: tomou emprestado o nome do pai e inscreveu sua candidatura como partido independente. Uhul, isso é que é balls!

Se fosse no Brasil, chamaríamos a iniciativa de molecagem, mas nos EUA - what the fuck! - Deez Nuts ganhou o imediato respeito do eleitor: teve 9% das intenções de voto na pesquisa da Public Policy Polling. (Come on, mesmo que esse índice decorra de um óbvio inconformismo social – o famoso “voto cacareco”, tipo Macaco Tião dos anos 80 - 9% não é coisa pouca, vamos convir: maior aprovação do que a presidenta de um grande país cujo nome não vou citar para não ser indiscreta).

Fecha o parágrafo e volta à questão.

Como faço com tudo aquilo que não entendo (com exceção de fórmulas matemáticas) fui me informar sobre a gênese da coisa. A expressão “Deez Nuts” (“This Nuts”), meio hiphoper, significa algo como “esses malucos”, mas ganhou personalidade e relevância ao ser verbalizada de um jeito bizarro por Welven Da Great, um simpático jovem com deficiência intelectual. Seu vídeo viralizou no Instagram. Veja em https://www.youtube.com/watch?v=4v8ek9TEeOU

Eu que vivo de perto as agruras da DI, logo me preocupei com uma possível exposição perversa da deficiência mental do rapaz. Então fui atrás de mais dados. Até que ouvi do próprio Welven que está feliz com a fama – tem sido compartilhado por ídolos que jamais sonharia ter contato. À sua maneira, sente-se honrado, recebe convites inusitados e passou a faturar US$4.500 por cada entrevista que concede. Nesse contexto, gostei ainda mais da origem partidária de Deez Nuts. 

É uma pena que Brady Olson tenha que esperar mais vinte anos para se candidatar validamente. Teria meu apoio desde já. Perguntado até onde iria com a brincadeira, o líder respondeu com o sábio oportunismo de um orador de palanque: “até onde a América aguentar”. :)  Go for it, dude!



09/08/2015

BRINCADEIRA PARA O DIA DOS PAIS



Gosto de desafiar meus filhos com uma brincadeira que tem revelações filosóficas interessantes. Pergunto: se você tivesse que escolher uma só fruta para comer a vida toda, qual seria?

Pode parecer simples, mas responder ‘morango’, ‘uva’ ou ‘bergamota’ é algo bem desesperador (mesmo que em hipótese), porque todo exercício que pressupõe exclusões gera o imediato sentimento de perda, além do medo de errar. Ou você jura que passaria tranquilinho o resto dos seus dias à base de jaca?

Outra: se tivesse que se vestir com a mesma cor para o resto da vida, qual seria? Até soa fácil. A gente se imagina de azul, respira requintado e confiante por alguns minutos, mas de repente não, não, socorro, faltará alegria. Aí lembra do vermelho - vibração, chama, sedução, yes! - mas logo conclui que a coisa ficaria russa com tanto excesso de personalidade. A resposta mais confortável nesse caso tem sido ‘branco’, mas mesmo ele, todo limpo, todo santo, todo em paz, é a nítida lacuna das cores – e diga aí, quem se veria feliz assim tão puro e imaculado por toda uma existência?

É engraçado pensar. E brincando, brincando (literalmente), dizemos as maiores verdades.

Por isso, proponho como brincadeira para esse Dia dos Pais a pergunta mais difícil do nosso questionário caseiro: com qual palavra você descreveria seu pai? A dificuldade está na síntese, pois reduzir qualquer pessoa a um só vocábulo é impossível, imagine sendo ela o seu pai. Mas tente.

Já fiz meu exercício.

Antes de tudo, devo esclarecer que na brincadeira familiar sou aquela que pensa ‘banana’ mas responde ‘laranja’ com medo de faltar líquido na opção da fruta. No quesito cor, escolho ‘cru’ quando na verdade gostaria de dizer ‘amarelo’ – meu pigmento preferido. Assim, a expressão com que eu própria me identifico bem que poderia ser ‘dúvida’ (que é um conceito, aliás, que adoro, pois contém o sábio princípio da filosofia), mas acabo me traduzindo como ‘agridoce’, que é um termo meio em dúvida sobre si mesmo. 

Então, para o meu pai - uma pessoa tão maravilhosa quanto complexa - tive muita dificuldade em encontrar a locução certa. Busquei entre seus adjetivos os mais fortes pra mim: protetor, carinhoso, inteligente, sensível, dedicado, generoso. Diversos atributos poderiam definir meu pai. Gostaria de escolher vários, mas a brincadeira é concentrar-se em um só, então penso que ‘integridade o representaria bem.

No substantivo ‘integridade’ múltiplos traços (tão próprios dele) estão embutidos: o caráter, a justiça, a honestidade, a coerência, o juízo, a confiança. Meu pai é conhecido entre os amigos por ser aquele com quem se pode jogar par-ou-ímpar pelo telefone. Não precisaria dizer mais.

Mas como sou movida a dúvidas e emoções, escolhi para o pai a palavra mais clichê deste dia: Amor.

 Sei que para um bom pai essa palavra basta. 



06/08/2015

EM CRISE DA CRISE



Ando cheia de ouvir (e de falar) mal da crise no Brasil. Já basta ter que respirá-la todo dia. Entrei numa ressaca moral, sabe assim? Um cansaço, uma repugna, quase aversão - tipo quando uma pessoa muito chata vem vindo em sua direção pela mesma calçada: “aaai, nãão, lá vem a crise!”.

Nesta semana uma amiga do Facebook anunciou que deixaria para o noticiário a tarefa de divulgar os fatos decepcionantes do cotidiano e postaria somente coisas boas: ela fala de sorrisos dados, gentilezas presenciadas, de investimentos ocorridos no país, de novos negócios inaugurados com otimismo. Achei lindo passear por sua timeline - parece uma rua ladrilhada com pedrinhas de brilhante.

Daí li a coluna do Nizan Guanaes e também gostei de saber que ele se empenha diariamente para manter a motivação (própria e de sua equipe) através do otimismo: “Nessas horas precisamos de Silvio Santos e Faustão em nossas organizações. Temos de ser verdadeiros animadores. Espalho mensagens anticrise até nos banheiros. Celebro cada miniconquista. Porque senão a gente fica todo dia celebrando a crise”, conclui. E cita o recente episódio do ataque do tubarão: “se o surfista tivesse se desesperado, tinha morrido. Ele foi lá e bateu no tubarão.” E assim Nizan inicia sua jornada: “Bom dia, crise. Vamos à luta. Vamos pra cima do tubarão.”

Então me lembrei de um livro de autoajuda para salvar casamento (não deu certo pra mim, kkk, mas pode funcionar nesse caso). Dizia algo assim: quando um casal se reencontra no lar e pergunta “como foi seu dia?”, há dois caminhos. Ou você menciona tudo que deu errado (é o que comumente acontece) e instaura aquele climão, ou você valoriza o que houve de produtivo (sempre há) e contribui para a leveza do ar.

Acho que a dica vale pra tudo na vida. A velha fórmula de ver a parte cheia do copo. De pensar positivo. De emanar e atrair energias boas.

Não se trata de tapar o sol com a peneira, de polianar ou viver no mundo do faz de conta – nem seria possível, sentimos a crise na carne todo dia, eu, você, e a vó do badanha. Basta apertar o interruptor de luz ao acordar que a crise se acenderá (literalmente) e ficará ali, alumiando sua cabeça com aquele reajuste tarifário de 39,5%.

Aí você, forte que é, apaga a luz e sai de casa cantarolando Bob Marley every little thing is gonna be alright e parece que a crise some. Então entra no supermercado e tcharan! se encontra com ela de novo – e não adianta mudar de corredor porque a crise estará em todas as gôndolas do comércio. Toda$.

Tampouco se trata de alienação, Deus me livre, só acredito no poder da mudança através da consciência e da atitude (tá, confesso: creio num pouquinho na sorte também). Mas não é isso.

Falo de encontrar jeitos positivos e práticos de se relacionar com a crise. De gastar mais fósforo buscando soluções (dizem que na adversidade há sempre grandes oportunidades) do que apenas reclamando. De criar. De usar a rede social para mobilizar ações concretas (passeatas, abaixo-assinados, crowdfunding) e não só para gerar raiva e descrença. De aportar ideias, refletir. Estimular a confiança abrindo brechas no muro das impossibilidades.
Ninguém consegue sorrir com desânimo.

Trata-se, no fim das contas, de acreditar na luz no fim do túnel. Procurá-la com afinco e ainda mostrar aos outros onde ela está.

A luz no fim do túnel nunca será sobretaxada pela inflação e, se depender do seu bom olhar, permanecerá acesa. Porque essa luz se chama Esperança - e a esperança, você sabe, é sempre a última que apaga.

05/08/2015

AMOR É O ALIMENTO MAIS NUTRITIVO



Posso não ter sido uma ‘boa mãe’ em vários momentos dessa longa carreira de progenitora. Sequer fui uma ‘mãe suficiente’ em outras tantas situações, asseguro.

De todos meus atos perante os filhos, o único em que realmente tenho a convicção de ter acertado, foi na amamentação. São inúmeros os benefícios em favor do bebê: imunidade, nutrição, vínculo, paz, acalento, confiança, etc. (há estudos que apontam até capacidade intelectual como vantagem).

Mais do que um acerto, vejo o aleitamento como um PRIVILÉGIO.

Sei o quanto é difícil para muitas mães. Também sei das situações de impossibilidade, como as anatômicas, por exemplo. Conheço mães que gostariam muito de ter podido amamentar seus filhos, que se esforçaram pela causa, e que mesmo assim não conseguiram. Por isso prefiro chamar de privilégio o que muitos consideram obrigação.

Nesta semana mundial do aleitamento materno, venho beber do assunto.

Mas não vou romantizar o quadro (não espere isso de mim). Amamentar dói, na maioria das vezes. Você tem que enfrentar rachaduras, sangramentos, ardências, até que o seio se acostume. Precisa superar aquela fase (desesperadora) de descompasso entre a produção de leite e a demanda do terneiro-bebê. Lembro do susto diante da mama empedrada e meu recém-nascido dormindo o sono dos justos: “Deus do céu, quem vai resolver isso agora?”. Você tem que aceitar sua condição de provedora no sentido mais primitivo que há. E sim, precisará “ordenhar-se” - por mais bovino que isso possa parecer.

Só perseverei na missão porque o Pequeno Príncipe que habita minha alma sussurrava: “É preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas”. Eu queria muito conhecer as borboletas. “Dizem que são tão belas!”, ele provocava.

A natureza ainda me ajudou com uma fartura que permitiu levar só no peito cada uma das crias pelos seis meses recomendados e mais um pouco, thanks God.

Penso que não há experiência mais grandiosa em todo o pacote da maternidade. Essa conexão sublime entre a mãe e seu rebento é de uma transcendência existencial que nenhuma outra vivência até hoje me mostrou. Amamentar seria a experiência da vida que eu mais gostaria de reviver.

Por isso, recomendo. Se for algo viável para você, querida mamãe, não pense duas vezes: agarre com as duas mãos a oportunidade e use os dois seios que a vida lhe deu.


Agora, se não for possível, bem, apenas ame. Ame seu filhote como só uma mãe é capaz de amar. Porque apesar de válida a campanha pela amamentação, sabe-se que o Amor Incondicional é, definitivamente, o alimento mais essencial e nutritivo que uma mãe pode oferecer.


31/07/2015

FORMIGAS TAMBÉM VOAM



Run and tell all of the angels that everything is alright.(...)
Make my way back home when I learn to fly high"
(Learn To Fly - Foo Fighters)





   Adoro protestos pacíficos e criativos (quem não?), mas esse surpreendeu pela delicadeza da operação, que foi gigante. Pense gigante. A inusitada ação ‘Rockin1000’ reuniu gratuitamente mil músicos fãs do grupo Foo Fighters para tocarem ao mesmo tempo Learn To Fly, como forma de reivindicar um show da banda americana na pequena cidade italiana de Cesena (algo do tamanho da nossa Erechim) - obviamente jamais incluída no mapa de espetáculos deste consagrado fenômeno do rock alternativo.


Foi um gesto tão delicado e gigante quanto uma formiga apaixonada oferecer um buquê de mil lírios a um célebre elefante.

O resultado foi bem mais do que um cativante apelo. Foi um afinado encontro de sonhadores, efervescente e emocionante, que já conta com mais de oito milhões de acessos no youtube. Você pode acrescentar o seu e conferir o vídeo aqui:   https://www.youtube.com/watch?v=JozAmXo2bDE

Era um protesto. Poderiam fazê-lo atirando pedra em janelas, ateando fogo em ônibus, parando de trabalhar. Preferiram o poder da música: guitarra, baixo, bateria e voz como ferramentas da insurreição.

Funcionou. “Che bello, Cesena! Nos vemos logo” - respondeu ontem o líder da banda, Dave Grohl, ao receber esse incrível buquê de arte, amor e energia.

O idealizador dessa ousadia entrou imediatamente para minha lista de ídolos, junto de outros fortes como Schwarzenegger e Stallone.

Ele conta que passou mais de ano organizando o plano. Ensaiando passos, angariando voluntários, convencendo incrédulos. Buscando verba com um teaser nas redes sociais “compartilhe, doe e reze por nós”. Em contrapartida oferecia uma camiseta, uma cerveja e uma típica piadina romagnola (o calzone tradicional da região).

E assim, como uma formiguinha maestra, foi orquestrando o levante.

Fabio Zaffagnini é um herói revolucionário. “A Itália não é um país onde os sonhos facilmente se realizam, mas é uma terra de paixão e criatividade” – mandou ele. Paixão e criatividade. Eis o açúcar que o movia.

“Acordava toda manhã pensando em como viabilizar o projeto. O que precisamos é de um milagre gigante”, desabafou.

     De centímetro em centímetro, Fábio. Com paixão e delicadeza. Assim trabalham as formigas. Assim elas conquistam o gigante. E assim, milagrosamente, aprendem a voar.   

21/07/2015

O SAMBA DO COLONO DOIDO



Pegamos a estrada para a serra. A ideia era sair da rotina. Comemorar o primeiro fim de semana de férias dos filhos com programa típico do nosso inverno.

Passando o pórtico de Gramado vimos uma família encarangada com casaco, luvas e gorros, tirando foto em frente ao totem que marcava a temperatura: 19 graus. Certo que turistas do nordeste.

Daí pra frente o trajeto foi como mesa de café colonial: salsichão com schimia de morango; um palhaço em perna-de-pau dividindo calçada com a Coelha que distribuía balas de menta coladas em panfletos. O Museu de Cera disputando clientes com o Fondue de Queijo. Cinema 4D e Chocolate Artesanal. Malhas feitas a mão e Mundo a Vapor.

E ali perto, na Aldeia – um alce branco alertava na placa - mora o Papai Noel e sua turma.

Meu filho comentou: “Gramado anda bem randômico, né?” Achei a expressão um tanto sofisticada pra definir aquela muvuca toda. Era pra ser um lugar bucólico, de colonização alemã e italiana. Não uma disneylandia serrana tomada por carros de som convocando para o Harley Motor Show. Onde estão as araucárias? E as hortênsias? E os Quatis? Até o Lago Negro ganhou imponentes chafarizes.

Fiquei preocupada com a falta de coerência cultural na cabeça dos pequenos. Como explicar que ao lado da Cascata do Caracol fica a Montanha Nevada? E que aquele calorão não estragará o plano de patinar no gelo? - Crianças, vamos ao zoológico ver a Onça Pintada em extinção e na sequencia visitaremos os já extintos Dinossauros (que aliás parece que reviveram e invadiram a serra). Socorro.

A cada esquina tem um ponto diferente pra tirar foto bizarra. Como a turma de bruxas com cabeças vazadas para colocar as nossas. Um chimarrão gigante jorrando água. Um búfalo selvagem típico do noroeste canadense em frente à loja de couro. Um cavalo em tamanho real com um gaúcho a pleno galope - ambos empalhados.

“Era pra gente sair da rotina, mas Gramado é que saiu, né?”. De novo meu filho e suas interrogações enigmáticas. Achei o comentário um tanto cabalístico pra definir aquela aberração. Mas seguimos observando. Uma locomotiva de trem caindo para fora de um prédio. Índios apaches. Um museu medieval. Um mini mundo. A cidade toda mais parece uma maquete feita de biscuit.


Bom, a ideia era sair da rotina. Acho que deu certo. Trenó montanhês x Harley Davidson; Mambembes x Mamãe Noel; Coelho da Páscoa x Tiranossauro Rex; a gente só veria em Las Vegas. A preço de euro. E nem teria salsichão com schimia de morango.

10/07/2015

O NOVO CAMINHO DAS ÍNDIAS

Auditório da escola lotado de adolescentes de quatorze a dezesseis anos. 

Lá pelas tantas, o jovem poeta palestrante observa que a novíssima geração de leitores se encanta é com a poesia que cabe no Bloco de Notas do IPhone. Risos cúmplices da plateia.

E que a poesia curta funciona porque... meio que explode uma emoção, tipo assim, soco no estômago.

E ainda: que se a reflexão proposta no poema for despretensiosa e aventureira, então falará direto ao espírito livre da juventude. Ilustrou seu pensamento: enquanto Os Lusíadas apresenta uma viagem poética gigantesca, Paulo Leminski oferece uma rota curta e divertida: “não discuto/ com o destino/ o que pintar/ eu assino”. E é por essa trilha que a garotada vai preferir caminhar.


Hoje Guilherme Becker falou mais como porta-voz de uma geração de leitores do que como escritor. Do alto dos seus 18 anos citou Tumblr, Facebook, Twitter Instagram, como ferramentas básicas de input cultural contínuo. Traduziu o anseio dessa turma que lê simultaneamente cinco mídias no celular enquanto ouve música, dá risada e toma um suco. E olha que Guilherme é uma exceção que, além dessas ferramentas, ainda consome cerca de 70 livros de papel por ano.

É preciso ouvi-los para saber o que efetivamente ouvirão.

Por isso fiquei ali quietinha, fingindo que estava filmando quando, na verdade, aprendia.

Não anotei no bloco de notas porque sou do tempo da cadernetinha. Mas levei pra pensar durante o dia.

Sempre achei a poesia uma arma com a cara da nova geração. Porque se apoia na metáfora, que nada mais é do que uma abreviação, uma imagem aberta ao intérprete. Com pouco, se diz muito. E a mensagem aparece à jato, como eles. Tudo o que o jovem quer é chegar logo. E logo partir pra outra.

Como ouvinte, aprendi que essa gurizada não vai engolir tratado sobre assunto algum. Nem quer amarrar com muita força sua opinião - que, inclusive, poderá mudar dali a cinco passos. O mesmo tempo, aliás, que levarão para ler mais dez ou vinte coisas novas. Nunca se leu tanto.

A diferença é que na época de Camões, era aceitável narrar uma epopeia em 8.016 versos. Havia leitores para tanto. Hoje, ou você dá seu recado em 140 caracteres, ou a plateia digital se esvazia. 

Leminski, em Não Discuto, cuspiu a libertação em dez palavras e abriu passagem. Vamos em frente. Parece que esse atalho é o verdadeiro Caminho das Índias de hoje.

08/07/2015

DA MANDIOCA AO FUTEBOL




 Essa coisa da Dilma com a mandioca não me sai da cabeça.

Desde que a Presidenta garantiu que a Mandioca é nossa, durmo tranquila como se tivesse alguns milhões guardados no cofre. Ou como se eu fosse conselheira da Petrobrás, o que (parece) dá no mesmo.

Sim, porque pense bem: a Mandioca poderia não ser nossa, né? E nesse caso não comeríamos o angu quente pelas beiradas, ora poish.

Ou, vamos lá, pior ainda: poderia a Mandioca a qualquer momento deixar de ser nossa, como quase aconteceu com o Cupuaçu, lembram? Por um tiquinho de nada o Brasil não o perdeu para uma empresa japonesa, que registrou a patente do Cupuaçu como se ele fosse, sei lá, um novo lançamento da Mitsubishi. É preciso lembrar: um tormentoso processo judicial é que assegurou a certidão amazonense do Cupuaçu e evitou que ele crescesse com os olhinhos puxados apesar desse nome de índio tupi tão legítimo.

Fiquei pensando: talvez traumatizada pelo Cupuaçu é que a Presidenta valorizou tanto a “conquista” nacional da Mandioca. Vá saber o que seria feito da Mandioca caso caísse nas mãos erradas.

O passado ensina.

Inclusive, aposto que Dilma, também vacinada com aquela gafe histórica de Ronald Reagan, não perdeu a oportunidade de reforçar a Barack Obama que o Brasil não é a Bolívia, just in case. E de comentar de cantinho que a nossa capital (Brasília, mister President, Brasíííliaaa) vai muito bem obrigada – aliás, melhor que Buenos Aires, a capital brasileira batizada por Bush. Não custa avisar, né? Mancadas acontecem nas melhores famílias presidenciais.

Mas Obama é implacável: em 2011 já havia deixado claro que conhecia Vasco e Botafogo, casualmente os finalistas este ano (que visão, hein?). Então agora enfatizou que os Estados Unidos veem o Brasil não como uma potência regional, mas sim global. Pudera, com tanta Mandioca, Cupuaçu e Futebol...

É uma forma de ver as coisas. O fato é que o comentário não pareceu improviso.
Há drones aos montes na Amazônia. E nos estádios de futebol também. Nem só de e-mails e telefones vive a espionagem, que o diga Edward Snowden.

Mas além de espionagem, esse governo americano tem muito estudo. E um olho atento no campeonato carioca de futebol.


O nosso, parece ter um olho atento no futebol e o outro na conquista da mandioca e (concluo) pouca atenção no estudo. Não custa avisar, afinal, mancadas acontecem nas melhores famílias presidenciais.

28/06/2015

BONITOS POR NATUREZA

“Moro num país tropical,
abençoado por Deus
e bonito por natureza,
 mas que beleza.
E em fevereiro tem carnaval”

    

Sem sofrimento, pessoal. A gente já sabia. Para ganhar qualquer Copa hoje em dia o futebol brasileiro precisaria ter menos 'graça' e mais 'raça'. Raça é qualidade dos bravos, atitude de vencedor. E vai dizer: nosso povo é a coisa mais linda e mais cheia de... que?

Vencer exige a postura combativa dos sobreviventes. Dos que lutam para seguir de pé custe o que custar - como naquela fábula da mosca que cai no copo de leite e passa a noite toda batendo as asas até que amanhece sobre a nata dura. Vivinha da silva. Se a mosca vestisse a camiseta brasileira talvez não se desse ao trabalho, afinal, era apenas a sua vida.

Não esqueço a imagem de Álvaro Pereira da seleção uruguaia no jogo contra a Inglaterra na Copa de 2014: o cara desmaiou subitamente ao ser atingido por uma joelhada. Quando recobrou a consciência, viu que estava sendo substituído e, num rompante indignado, o charrua levantou trôpego e bradou de dedo em riste e exigiu sua permanência em campo. Negou-se a sair porque aquilo não era um jogo, era sua própria vida!

Observemos: o que faz Neymar quando perde um gol feito? Passa a mão na mecha loira e sorri com uma carinha fofa de deboche. A pátria maternal se compadece e acolhe a falha como um colo de vó - e vamos para o próximo lance, meu filho. Agora, me diga: você já viu o atacante Rooney sorrir? Nem no aniversário de um ano do filho, pode apostar. Concentração total. Como um guerreiro celta. Guerra é seu esporte.

Tenho uma tese empírica: o Brasil é um país mimado, o que se reflete no jogo bonitinho mas ordinário da nossa seleção – essa garotada que acha que dá pra colher sem plantar, vencer sem suar, driblar bonito e golear sem a chatice de marcar o adversário. Podemos até fabricar talentos, mas no fundo o Brasil canarinho gosta mesmo é do cocoricó. Como o galo, que não põe ovo, mas canta.

Eis o fundamento da tese: somos um país mimado pelas circunstâncias. Em nossa história não morremos de guerra, nem de frio, tremor de terra, tsunami, ou bomba atômica. Sobraria morrer de fome, não fosse o peixe em fartura no imenso litoral, a bolsa família do Brasil Carinhoso, a banana caindo do pé direto para a mão, a água limpa do côco. Por aqui, quem faz força é a gravidade. A gente faz é bossa, dança, graça e tudo mais que termine em som de pizza.

Observemos outros campos: Brasil é campeão mundial em quantidade de cesariana. Parto normal exige esforço e ainda dói. Melhor é alguém chegar na hora marcada e abrir a porta com bisturi, não é mesmo? E confesse aí: entre assistir debate político e um show do Zeca Pagodinho, fazemos o que? Entre protestar nas ruas por uma reforma tributária ou seguir o trio elétrico saltitando? Entre ir à assembleia de condomínio ou ver a novela das oito, hein?

Nós, brasileiros, combinamos mais com farra do que com garra. Rimamos mais com rede do que com sede. A gente gargalha mais do que batalha. Por outro lado, todos sabem que o brasileiro é alegre, afetivo, solidário, criativo, brincalhão, bom amigo. Não fiquemos decepcionados, são outros atributos e também têm seu valor.

A questão é preparar nossas expectativas compreendendo a história. Vai ver não nascemos para ser líderes, e sim para ser livres. Somos bonitos por natureza, não por esforço próprio. Temos graça, não raça, ora bolas. E entre ‘graça’ e ‘raça’, a raça é a que dá títulos.

Graça dá a festa. E aqui entre nós: a festa mais divertida que você já viu!!..

20/06/2015

JOGO DE VAIDADES


Tudo começou com Messi. Não. A rigor, acho que começou com a onda dos cabelos estilizados, brincos de brilhante e tatuagens. Foi quando o espelho ficou mais importante que a bola. Foi quando a nécessaire Armani de cremes e perfumes substituiu o sacolão Adidas de camisetas suadas. Foi aí. É. Foi.

Mas estou falando dessa última semana, então, nesse caso a jogada começou com Messi. Ele havia apresentado sua lista de exigências ao luxuoso hotel em que a seleção argentina se hospedaria no início da Copa América. Suas excentricidades incluíam três jacuzis, uma cesta de basquete no quarto e uma piscina a exatos 28ºC. Entre outros mimos. Bem verdade que não ordenou toalhas brancas sob seus pés a cada passo dado, como Whitney Houston. O rapaz é simples. Ocorre que acabou se apegando à cama do hotel Serena Suites e declarou que dali não sairia até o final da Copa, não importando se as partidas se realizassem a 600 km dali, como a de hoje, em Viña de Mar, ou mais. Vire-se com a logística, delegação. 

Depois foi a vez de Vidal, craque da seleção chilena que deu show de poder ao destruir sua Ferrari e mais três carros, embriagado, após noitada num cassino. Negou sua culpa num primeiro momento porque caso se reconhecesse como um ser humano pecador, o Chile seria imediatamente decapitado do mapa. Logo depois parece que tomou um chá morninho de humildade e entendeu que ele e a nação eram pessoas diferentes, cada qual com sua história e identidade própria. Pediu até desculpas ao povo. Agora vire-se com os danos dos carros, seguradora.


Então, Neymar. Depois de passar todo o jogo contra a Colômbia em TPM, estressadinho com cada falha em campo (e foram muitas), ao ouvir o apito final chutou seu descontrole para todos os lados e ainda aguardou o juiz para sussurrar-lhe arrogância ao pé do ouvido: “quer ficar famoso às minhas custas, seu fdp”. Um espetáculo de virilidade. Parece que até sapateou de chuteiras depois. Boa, Neymar - valeu 100 pontos na carteira e quatro jogos de suspensão. Agora vire-se com o recurso, CBF. 

E paramos por aqui porque a semana já está no fim. 

Saudade do tempo em que jogador de futebol era um atleta, pelo qual torcíamos. Ele lutava por nossos gritos e aplausos, não pelos holofotes da mídia internacional. Era atraído pelo gol e não por seu próprio umbigo. O ritual era simples: ajeita a chuteira, sorri para a bola, cospe no chão. Agora é diferente: ajeita o cabelo, sorri para as câmeras, cospe na nossa cara. E vire-se com a inversão, torcedor.


04/06/2015

O peso do amor e o colapso dos rituais


Bruno Juillard bateu de punho cerrado sobre mesa e acabou com a brincadeira: “é o fim dos cadeados!”, ordenou. “Estragam a estética da ponte, são estruturalmente ruins e podem causar acidentes”, foram as razões definitivas.
Então seguirá arrancando a fórceps (leia-se, a guindaste) as quarenta e cinco toneladas de juras de amor da Pont des Arts de Paris. 

Sabemos que o Amor não precisa disso. Nem de emblema, nem de amarras (muito menos). O amor, aliás, é leve e movediço. Antes flana sobre o Sena, em vez de ficar ali aprisionado em metal pesado.

Se eu fosse escolher alguma imagem como símbolo, seria a do Amor tomando um café com crème brûlée numa esquina qualquer de Paris, com um galouise sem filtro bem tragado depois – a fumaça espargindo aquele delicioso aroma de romance sobre o rio. Assim etéreo. Assim sentimental. E olha que eu nem fumo.

O fato é que o Ser Humano (esse sim) necessita de símbolos concretos. Vale tudo: figa, crucifixo, fitinha do senhor do bom fim. Quem não?  E somos adeptos a rituais. Toc, toc, toc. Ajoelhar e benzer-se. Pular sete ondas. Quem nunca?

Daí, Monsieur Juillard, que a questão não é assim tão só matemática. Tão só engenharia civil, entende? Precisamos materializar nossos sonhos e desejos através de metáforas criativas.

E não dá pra negar que as possibilidades estão reduzindo nesse mundo tão politicamente correto. Olha só: não se pode mais entalhar as árvores com o clássico coração, flecha e iniciais dentro (o Ipê, a Imbuia e o Jacarandá estão ambientalmente protegidos). Tatuar no peito o nome do ser amado fica bem difícil de apagar depois (... e que o amor é efêmero, bem, até os apaixonados desconfiam). Já aquela clássica oferenda da vela, pimenta, óleo de pitanga, arruda, sal grosso, mel, carvão e rosas vermelhas é meio trabalhosa - e se incluir galinha morta, então, a lei pega.

Assim, o artifício de selar as juras de amor com um cadeado sobre a ponte e jogar a chave no rio, parecia bem interessante – “não é o que os peixinhos dizem”, alguém alegará. E Juillard ainda acrescentará o pesado argumento da carga.

Está difícil ser romântico e correto ao mesmo tempo.

Assim, antes que sejamos consumidos pelo vazio metafísico nesse mundo já quase sem Deus, deixo aqui minha ideia de “cadeados reaproveitáveis”. Usei a estratégia numa ponte em Salzburg. E nem foi por consciência ecológica. Muito menos por cálculo estrutural. Foi por economia. Era ou um Cadeado em euros, ou uma Torta Sacher na schwarzstrasse. Preferi a opção mais calórica. Mas não abri mão da fezinha, deus-me-livre-e-guarde: escolhi um cadeado meio gasto entre os tantos já presos no gradil, e tasquei nossos nomes com caneta permanente por cima.

Evitei peso extra na ponte e metal no rio, veja que inspiração.


Se vai dar certo como mandinga, não sei. Mas está lá. Até que outro espertinho risque por cima. Ou que algum juillard austríaco, com frieza burocrática, ordene arrancar.

12/05/2015

DOMINÓ DA MEMÓRIA

 
Pode me chamar de emotiva, exagerada, nostálgica, patética, histérica. Sou tudo isso e um pouco mais, muito prazer. O fato é que sofro com as perdas. E esse ano começou pesado. Está desabando, peça por peça, o dominó da minha memória. Primeiro foi o Jornal “O Sul”. Há anos eu estava apegada aquele toque, ao movimento matinal de folhear, ao cheiro de página, entende? Pergunte-me se fui buscar a versão digital. Nunca mais!
Depois foi o Plazinha - um hotel que hospedou o glamour da cidade desde 1958 e que, para minha geração, significou o programa descolado-chic da feijoada aos sábados no centro. Pois ontem o Plazinha também bateu as portas na cara da nossa memória.
Agora veio essa: dia 18 de maio teremos que nos despedir da Rádio Ipanema. Já foi duro aceitar, em 1999, o abrupto calar da voz de Kátia Suman, que comandou meu ritmo musical nos anos oitenta e noventa. Agora vão desligar a rádio toda?!? Diz a notícia que depois de 32 anos de história, a Ipanema estará “migrando para o mundo digital” - que deve ser aquele lugar onde colocam as coisas obsoletas de castigo. Ali, entre a vitrola e o pinguim de geladeira. O quê? O pinguim já se mandou para a Antártida?
Ouça a próxima: estive na Vivi Vídeo (onde vou há 29 anos locar “fita tape”, depois dvd, então blu-ray, e onde achei que logo pediria por um archival disc) e encontrei a placa: “Vamos fechar! Compre seu filme por apenas R$12,00”. Se até a Vivi Video está indo dali, o que me garante que de repente não sumirá o Moinho de Vento do Parcão?? (que, aliás, já foi hipódromo e estádio de futebol...)
Deem explicações e tempo para absorvermos as mudanças radicais. Deem assistência, consolo, colo. Não se pode derrubar as peças assim, sem um colchão emocional. São vínculos fortes.
Estou arrasada. Sem chão. Sem pernas. Sem fé no futuro.
Prepare-se. Parece que até o clássico Gre-nal está ameaçado: andam juntando as torcidas, um troço misto, e daqui a pouco tudo ficará lilás.  
E, dizem, vai faltar água no Rio Guaíba.  
Só resta anunciarem que o aeroporto Salgado Filho fechará e seremos tele transportados para um lugar melhor. Eu fico! - inarredável, amarrada, agarrada na última pedra de memória.       

10/05/2015

CONTRA O PODER DO BISTURI

Para refletirmos nesse dia das mães:
 
Foto de Tatiana Druck. Não que eu tivesse torcendo por alguma complicação, benzadeus! Mas confesso: também me surpreendi com a rapidez do parto da princesinha da Kate (“Kate”..., sorry, a celebridade é uma merda). Pois então. A duquesa deu um pulinho ali no hospital, pariu, e dez horas depois já estava em casa. Assim. Como quem vai tomar chá com as amigas, ou comprar meias no shopping.

Achei o máximo. Na verdade, invejei. Eu que tive duas cesarianas e que sonhava em caminhar e sorrir após o parto (em vez de incorporar aquela cara de “tudo bem, vai passar” para visitas, e agonizar as dores e limitações de uma cirurgia abdominal), me senti a gata borralheira esfregando o chão, enquanto ela, a diva parideira, deu a luz rapidinho e ainda saiu da maternidade de braços dados com um príncipe! Assim surreal.

Foi aí que esse tema voltou a me ocupar a cabeça.

Temos que rever nossos conceitos com urgência. Nós, as plebeias brasileiras sem títulos da coroa. A realeza é que sabe viver glamourosamente como bicho. Consegue parir fácil como qualquer animal faz. E fica logo pronta pra cuidar, amamentar e curtir seu filhote.

É claro que nem sempre é possível optar pelo parto normal. A OMS informa que 15% dos casos exigem intervenção. Eu mesma tive meu primeiro filho de urgência e prematuro (já minha segunda cesárea foi eletiva, e até hoje me culpo por não ter ido contra as “indicações” – quase sempre discutíveis - que recebi).

Sabemos que na maioria das vezes cesariana é uma escolha. Uma opção conveniente aos médicos, que organizam sua agenda e poupam tempo. Conveniente aos hospitais, que otimizam leitos. Conveniente às mães, que evitam a temida dor e o risco de sair esbaforida (sabe-se lá quando) com a sacola na mão e a bolsa rompida. Não são razões suficientemente nobres, vamos convir. Mas são as que nos movem.

Revisei as estatísticas: o Brasil segue o campeão mundial de cesarianas. Um quadro crescente e chocante. Aqui, 56% dos bebês nascem pelo poder do bisturi (84%, na rede privada de saúde!). A média mundial é de apenas 18%.

Vamos questionar essa cultura do avesso, desfazer mitos, exigir a informação que está nas mãos de poucos. Refletir e posicionar-nos com firmeza. Encorajarmo-nos. Vamos tratar com mais normalidade o que é por definição normal: a procriação.

Estamos falando de intervenção desnecessária, com todos os riscos inerentes: anestesia, infecção, hemorragia, cicatrização, pós-cirúrgico. Há 10 vezes mais mortes maternas. Poucos sabem, mas numa cesariana cortam-se sete (sete!) camadas de tecido até chegar ao bebê (para quem se interessar: pele, gordura, aponeurose, músculo, peritônio parietal, peritônio visceral e útero). Mexa-se, com um buraco desses.

Por fim, é cientificamente comprovado (e não há polêmica sobre isso) que o parto normal é mais saudável para a criança (orgânica e emocionalmente falando): elimina líquidos do pulmão, produz corticoide, favorece a amamentação. Já deveria ser o suficiente para decidir, não?

Assim, você que está em tempo de optar: pense nisso. Que tal ser normal como uma duquesa?