07/05/2015

OS LIMITES DA LOUCURA

Tenho uma amiga que não pode ver fiozinho solto (esses fiapos de costura que levantam em blusas, tecidos em geral). A doida puxa seu isqueiro e - plic! - queima instantaneamente o problema antes que a vítima possa dizer “não, eu adoro esse fiapinho” ou “não, por favor, tenho medo de fogo”, ou seja lá qual argumento de defesa for. Minha amiga é rápida no gatilho. E ainda fica com aquele sorriso heroico de canto de boca, do tipo “resolvi-seu-problema” – e a fumacinha subindo por trás da cena. Comovente assim.

Até aí tudo bem, quem não tem seus TOCs? Eu seria hipócrita se achasse normal, por exemplo, meu hábito nas refeições: só termino um prato com as garfadas equilibradamente distribuídas. Significa dizer que não engulo o arroz sem a respectiva cobertura de feijão, junto do pedacinho de carne e uma batatinha do mesmo tamanho, tudo em igual proporção - vá ser louca assim no sanatório!

Mas também é sabido que a loucura tem seu glamour. Rende música, filme, arte – “De perto ninguém é normal”, diagnosticou com precisão poética nosso Caetano. Ora, uma loucurinha de estimação pode até ser divertida, se for tranquila a forma como a pessoa lida com seu lado estranho. Eis então o primeiro limite da loucura: o convívio pacífico do maluco com sua maluquice.

Uma tia, por exemplo, para em frente à gôndola do supermercado e fica lá girando os potes, arrumando-os por cor e tamanho. Vai deixando tudo perfeitinho até que se dá conta dos trinta e sete minutos que perdeu nisso e se irrita com a própria insensatez. Então, num rompante de lucidez embaralha todos os potes e sai caminhando aliviada, com cara de paisagem, já puxando sua listinha de compras do bolso. Só falta olhar para cima e assobiar. Essa passa, não?

Já minha enteada tem o hábito de usar delineador nos olhos dezenas de vezes por dia (até antes de entrar no banho!). Quando confrontada com seu exagero, defende-se louca-da-vida (com o perdão da redundância): - “Me deixem com essa loucura que é a única que eu tenho!”

Todo mundo quer uma insanidade pra chamar de sua. Respeitemos. Desde que não cause sofrimento, que fique cada louco com a sua mania.

Voltemos à amiga queimadora de fiapos. O problema é que nesse caso ela pode machucar as pessoas com seu espontâneo gesto. E se a manobra dá errado? Se for um tecido altamente inflamável e – shlaf! - o sujeito pega fogo como se estivesse coberto de combustível? Há um risco envolvido. Eis então o outro limite necessário à loucura: a incolumidade alheia.

Por essas e outras, o Ministério da Razoabilidade adverte: usufrua sua loucura com moderação e guarde-a em lugar apropriado. Usemos a mesma ponderação que vale para pets de estimação: pode levar para passear, brincar, expor, se divertir. Mas não pode soltar a loucura por aí para atacar quem passa por perto. Tem loucura que mata. Toc, toc, toc.


1o lugar no 10o Concurso Mário Quintana - 
publicado na Antologia Lavra Palavra, POA: Sintrajufe, 2014.



5 comentários:

  1. Esplêndido texto, para dizer-se o mínimo. Interessante: 1. Teceu-se o primeiro limite da loucura, mas não foram abordados outros, e seria loucura não haver outros onde haja um primeiro. 2. Algumas excentricidades passam por loucura, mas são apenas excentricidades. Aí, tu me perguntas: e qual a diferença? Ninguém sabe a explicação exata, mas é uma verdade estabelecida, por mais louco que isto possa parecer! 3. Louco que toque fogo nos outros, acabamos de saber que existe, ou já sabíamos; mas louco ou excêntrico que rasgue uma nota de cem, nunca vi – então, para mim, toda loucura é suspeita! Beijossssssssss

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    1. Lucas, louca de faceira com sua visita! Concordo; toda loucura é suspeita. :)
      Primeiro limite: o convívio pacífico. Segundo limite: a incolumidade alheia (penúltimo parágrafo). O que na verdade é uma doidera, pois a loucura, na verdade, não tem limites! :)

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    2. Não sei que me deu, que não me ative ao segundo limite! É vero, incolumidade alheia é fundamental ao louco para que seja um mero louco beleza! Bem, talvez eu até saiba o que me deu, que não reparei nesse limite: foi o encantamento com o todo; quando isso acontece, algumas particularidades podem escapar! Beijosssssssss

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  2. Atire a primeira pedra quem tem gloriosa a sorte de não ter uma loucura. E a minha loucura é ter redescoberto suas postagens e já estar te tietando... Adoro a lucidez das geniais loucuras dos seus textos (rs)!

    Abraços, Tati!

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    1. Quanto tempo, José! Loucos somos todos, amigo; e lúcidos também!
      Que prazer te ter aqui! Abraço de louco :)

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