20/10/2012

Mulher Pistache

MULHER PISTACHE


Mulher argentina tem fama de durona com os homens. Dizem que para descolar um papo com uma portenha não basta ter voz. Nem um par de olhos verdes, um reforçado conjunto de bíceps, ser ex-BBB. Dizem que para seduzir uma argentina não funciona nem mesmo pilotar um jaguar ou outro bicho exótico, o que vale é a boa lábia. E não adianta falar espanhol perfeito e mais cinco línguas. Tem que falar a língua dela.

Significa dizer que este flerte exige calma e persistência. Antes de tudo, deve-se convencer a muchacha de que não há interesse em apenas uma noite. Ela conhece a safadeza masculina, só dará confiança aos pouquinhos. Migalha por migalha. Sabe que quanto mais rápido se entregar, mais rápido termina o jogo. E a gringa não curte games fugazes, ela prefere gangorra a escorregador - se é que o conquistador lembra das brincadeiras de praça nessa hora.

Pergunto-me por que diabos, conhecendo a pedreira toda, os homens ainda investem tanto na conquista da mulher argentina. Correm o risco da viagem perdida. Gastam umas férias só no flerte, comentando com entusiasmo patético: “Fabrizia está por um triz, mais cinco dias e ela me deixará pagar sua cerveja” – e a cara é de quem está quase fincando a bandeira no solo da lua.

Elas são difíceis, deslizantes, desafiadoras, as argentinas. É claro que sempre tem louco buscando o topo do Himalaia, mas em tempos hedônicos, em que o prazer perfeito está facilmente ao alcance da mão, por que será que a conquista difícil ainda é um esporte internacionalmente apreciado?

Encontrei a resposta quando enfrentava um pote de pistaches. Tem que abrir semente por semente com paciência de monge. Quebra-se a unha, machuca-se o dente, e você, salivando, não desiste. Com a dedicação de um hippie montando colar artesanal, você luta até a morte contra a casquinha dura, até que finalmente liberta a pequena iguaria e a enfia na boca com aquele sabor de floresta virgem, que dura... um segundo. E aí, valeu o sacrifício?

Sua cara deveria ser o emblema da saciedade: um copo d’água depois de atravessar um deserto, uma cama de mola ao final da maratona. Ora, depois de comer um pistache você deveria fechar os olhos e encenar um grande suspiro do tipo propaganda de bala de menta!!! Mas que nada. Suando em bicas você não pensa em outra coisa que não no próximo pistache, e no próximo e no próximo, porque aquela minúscula semente verde vira um desejo incontrolável, com a força do incrível hulk.

Você quer a sede do deserto até não aguentar mais. Não há trégua no prazer da conquista. Então você entra de novo no ringue com uma pequena (mas poderosa) casca dura na mão. Parece instinto de sobrevivência. Ou de luta: leão faminto não come cachorro morto em beira de estrada, segundo o ditado.

Então, fica a dica às mulheres: vistam sua casca-dura e sejam mais argentinas neste verão. Não entreguem a honra de bandeja. Só o desafio tem sabor irresistível, meninas. Sejam mais pistache e menos amendoim com sal.

1o lugar categoria Crônica -
Concurso Literário Mário Quintana 2012

15 comentários:

  1. Respostas
    1. rsrs, beijo sabor pistache pra ti Tânia!

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  2. Maravilha! Hum... deu uma vontade de comer pistache.
    Beijo, Tati

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    1. Vai à luta com tudo, Adri! To torcendo por ti!!! :)))

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  3. Ótimas analogias, isso posto, alguns desaforados sujeitos, acham que uma mesa e muitas mulheres é o sinônimo de solidão e que qualquer investida vale uma derretida, pois sim, vão pensando e os consultórios psicológicos vão ganhando cada vez mais pacientes (ou seriam clientes?)...

    Beijo, Tati!

    ;)

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    1. Pois é, pois é, Canto. Eu nem sei quem sai perdendo ou ganhando, só sei que a vida é uma eterna luta! E haja consultório pra manter a sanidade!
      Beijo pra ti, guria!

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  4. Sopram ventos de melancolia
    Transparente é o cinza que a tua alma encerra

    A minha pobreza é a falta de um par de asas
    Encontrei um lugar de reinvenção das sombras
    Pensei virar as costas ao tempo e ao deslumbramento
    E aí houve estranhamente o amanhecer das minhas palavras

    E passei para te deixar


    Um mágico beijo

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  5. Será mesmo que brasileira vai embarcar nessa? :))

    Beijo. Tatiana.

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    1. até acho que não, Dade. Nós temos nosso jeito especial de ser..rsrsr Mas considerando as evidências antropológicas, não custa fazer um charminho, né?
      beijo!

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  6. Tati, tu é doida rsrs
    Eu não viro argentina e me nego colocar meias na praia.
    Mas adoro pistaches.
    Sofro por eles, mas me delicio com eles.

    beijoss :)

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    1. rsrs, Bipe, pensando bem, elas têm mais a nos imitar!
      Mas, sei lá, fica a "dica de jogo" - de quem vê de fora e adora dar palpite furado (yo)! rsrs
      Vá fundo no pistache, dê a vida por ele que vale a pena! :))
      Beijos

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  7. O pequeno bípede abre pra mim, que ele é mais doido por eles que eu :)

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    1. rsrs, e é bom terceirizar missões perigosas!

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